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  • Crítica | Presença: O terror experimental da visão do espectador

    Crítica | Presença: O terror experimental da visão do espectador

    Dirigido por Steven Soderbergh, Presença subverte a história de casa mal-assombrada por meio de uma singela, e agonizante, mudança de ponto de vista.

    Obs: A seguinte crítica apresenta spoilers do filme Presença.

    Em 1954, Alfred Hitchcock fez Janela Indiscreta, a produção se utiliza de um protagonista imobilizado em seu apartamento para discutir voyeurismo, paranoia e tensão que ocorre ao observamos aquilo que não desejamos.

    No livro de entrevistas: Hitchcock Truffaut, em que o cineasta francês discute a obra do mestre do suspense, Hitchcock defende que o personagem de James Stewart está no papel de espectador assistindo ao filme. Truffaut complementa por meio de uma analogia que 9 em 10 pessoas, ao verem do outro lado da janela uma mulher se despindo ou um homem arrumando a casa, não conseguirão desviar o olhar, continuarão olhando, por mais que tente desviar seus olhos. O observador está imobilizado, fascinado e distante do objeto observado, pois bem, tudo isto para começarmos a discutir um interessante filme de terror chamado: Presença.

    O terror é um dos gênero mais antigos da humanidade. No campo cinematográfico ele apresenta diversos sub-gêneros, desde o slasher, o psicológico, a casa mal-assombrada e os mais experimentais como A Bruxa de Blair (1999, Eduardo Sánchez, Daniel Myrick) e Atividade Paranormal (2007, Oren Peli), que abriram portas para novos modos de tecnicamente explorar o terror.

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    Callina Liang, Chris Sullivan, Eddy Maday, Julia Fox e Lucy Liu em cena de Presença- Divulgação The Spectral Spirit Company

    Presença é um destes filmes experimentais, subvertendo o filme de “Casa mal-assombrada” e fazendo uso de 33 planos sequência, feitos em steadicam, permitindo uma maior fluidez no movimento, na medida que não acompanhamos a família sendo assombrada, e sim a própria assombração que observa a família.

    A respiração, o movimento escada acima, o movimento escada abaixo, a todo momento o espírito de Presença observa a família, sem ser visto ou ouvido, coincidentemente do mesmo modo que o espectador que vai ver qualquer filme no cinema, e que tem o olhar direcionado por conta de escolhas certeiras do diretor e que não são mudadas, por mais que desejamos.

    Eu me recordo quando assisti ao filme O Homem Invísivel (2020, Leigh Whannell). Em uma cena, a personagem de Elizabeth Moss é atacada por seu ex marido, agora invisível, dentro de um hospício. O monstro mata diversos médicos e seguranças indefesos, enquanto Elizabeth Moss agoniza e se arrasta no chão, passando por uma arma de fogo que estava ao seu lado. Me recordo vivamente que neste momento eu gritei bem alto, como se ela pudesse me ouvir: “Pega a Arma”, mesmo sabendo que ela jamais conseguiria me escutar.

    Quando assistimos um filme, nos inserimos neste mundo, nos aproximamos dos personagens, quase como se eles se tornassem nossos amigos mais íntimos por um tempo de duas horas. Por conta disso que nos emocionamos em filmes como Vingadores: Guerra Infinita (2018, Joe e Anthony Russo), quando o Homem Aranha é desintegrado pelo estalo de Thanos. Por conta desta proximidade, nós torcemos pelo bem e desejamos a queda do mal, isto não ocorre, assim, ficamos arrasados e almejamos um modo de impedir aquilo à tudo custo.

    Presença faz tudo isso com maestria, a assombração se aproxima dos moradores, diversas vezes quase encostando neles, como se tentasse a todo momento dizer algo, os protegê-los, porém, eles não os escutam. Por mais que esteja sempre presente, a assombração, que somente é vista rapidamente no último minuto do filme, é constantemente ignorada e apresenta pouco poder em alterar os fatos que ocorrem, exceto em alguns momentos bem específicos em que realmente mostra seu poder, principalmente em questão de zelo para aqueles que ama.

    Desde Frankenstein de Mary Shelley, entendemos que aqueles que enxergamos popularmente como monstros, raramente são tão terríveis quanto aparentam. O monstro de Frankenstein foi criado por um cientista maluco e jogado no mundo sem preparo ou conhecimento, o Fantasma da Ópera somente desejava um amor, e a assombração de Presença somente desejava proteger a família.

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    Callina Liang em cena de Presença– Divulgação The Spectral Spirit Company

    Do mesmo modo que Ghost Story (2017, David Lowery), a produção se baseia em diferentes linhas do tempo que mesclam o passado e o presente, nos gerando uma dúvida sobre quem é a assombração que observa esta família, prendendo a atenção do espectador não por meio de um terror, mas, por conta de uma tensão e um abalo causado pela nossa impotência como espectador.

    Presença é um filme curto, apresentando menos de uma hora e 30, porém, por conta de seu ponto de vista único e uma cinematografia experimental e tecnicamente interessante, prende a atenção e a curiosidade do público. No pôster da produção existe uma citação da crítica feita pelo site Bloody Disgusting: “Te deixa totalmente abalado”. A pergunta que podemos fazer é: por quê?

    A resposta é mais simples do que aparenta, ela nos deixa abalado não por conta da assombração, afinal, na medida que ela não é mostrada e vista sempre por meio de um ponto de vista, quem ela poderia ser além do próprio espectador? Um espectador que se sente tão desconfortável que abandona a sala de cinema no meio do filme? Como ocorreu durante o lançamento da produção no Festival de Sundance, e ocorreu novamente na pré estreia que tive o prazer de assistir ao filme?

    O que realmente nos deixa abalados é o que a assombração presencia, sendo praticamente inapto de alterar ou impedir os acontecimentos, como quando Ryan, um menino loiro e misterioso, dopa Chloe, a protagonista que a assombração observa desde o começo do filme.

    A assombração de Presença observa Ryan colocando a droga no suco, subindo ao quarto e oferecendo inocentemente para Chloe. No momento que o fantasma observa em um close, auxiliado pela lente olho de peixe, o espectador também quer gritar para Chloe não tomar o suco, porém, estamos impossibilitados de auxiliar, afinal, estamos em outro plano do que os personagens, nós não podemos ajudar aqueles de quem gostamos, isto sim abala.

    O roteiro de David Koepp intercala a onisciência do espectador com surpresas, afinal, o único ponto de vista que presenciamos ao longo de Presença é a da assombração, um personagem mudo, assim, o que ele sabe, nós sabemos, mesmo quando preferimos não saber, como é o caso de Ryan e a tentativa de “Boa Noite Cinderela” em Chloe.

    Neste momento a câmera treme e desfoca, enfatizando uma espécie de grito, auxiliado por um agudo sonoro que deixa qualquer um desconfortável. O forte de Presença, é este sentimento de nos colocar realmente na posição de espectador indefeso, aquele que como Jimmy Stewart somente observa o desastre se desenrolando, aquele que não consegue impedir a morte de um personagem querido como o Homem Aranha, ou aquele dá conselhos inatingíveis para Elizabeth Moss. Isto que nos abala: o sentimento de impotência.

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    Pôster Oficial de Presença

    Presença é considerado um filme de horror, porém, eu consideraria mais um thriller e um filme experimental, afinal, o mais perto que chegamos do terror, é transmitido pelo próprio ser humano, e pela nossa incapacidade tanto de ajudar, quanto de desviar o olhar, nos deixando fracos e fazendo refletir sobre o papel passivo que apresentamos toda vez que entramos em uma sala de cinema.

    Caso o espectador entre na sala buscando um terror, ele sairá decepcionado, afinal, o ponto de vista é extremamente cansativo após um certo tempo e o desconforto é constante durante toda a sua duração, porém, se for levado pelo filme, presenciará mais emoções e angústias do que muitas produções de horror da atualidade.

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  • CRÍTICA | Vitória: Um Retrato Incompleto de Coragem

    CRÍTICA | Vitória: Um Retrato Incompleto de Coragem

    Embora traga uma história poderosa e mais uma atuação brilhante de Fernanda Montenegro, o filme peca na direção e na construção narrativa, ficando aquém do seu potencial.

    Nos anos 2000, a aposentada alagoana Joana Zeferino da Paz, moradora da Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana, iniciou uma investigação, por conta própria, que levou à prisão de mais de 30 pessoas, entre traficantes e policiais militares envolvidos no tráfico local.

    A história, revelada em 2005 pelo jornal Extra, do Rio de Janeiro, ganhou notoriedade quando Joana, vivendo sob anonimato, pelo pseudônimo Vitória, por questões de segurança, gravou vídeos do tráfico em sua vizinhança para desmentir alegações falsas de um coronel da PM durante um processo judicial. Sua coragem resultou em uma investigação que expôs a omissão policial e o envolvimento de PMs com o crime organizado. Joana viveu em segredo por 17 anos até sua morte na Bahia. Sua trajetória agora é retratada em “Vitória”, longa estrelado por Fernanda Montenegro (“Central do Brasil”).

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    Vitória I Conspiração Filmes


    A premissa do filme tinha grande potencial: um relato real, cheio de reviravoltas. No entanto, o resultado final não faz jus à riqueza da história original, sendo salvo apenas por mais uma atuação excepcional de Fernanda Montenegro, aos 95 anos, como protagonista. Fora isso, “Vitória” perde força em escolhas narrativas que não fazem justiça à profundidade do caso.

    O principal atributo da produção, como já dito, é, sem dúvida, a performance de Montenegro. Sua interpretação é a única que consegue transmitir a complexidade emocional da personagem e a tensão da situação. Contudo, o restante do elenco não consegue sustentar a gravidade da trama. As atuações são limitadas e, em muitos momentos, as interações entre os personagens soam artificiais, prejudicando a imersão do espectador.

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    Vitória I Conspiração Filmes

    Outro ponto negativo é a estética de telefilme, antiquada e pouco envolvente. A direção, de Andrucha Waddington (“Casa de Areia”), não consegue traduzir a tensão e o impacto do caso de Joana com a intensidade que a história exige. Além disso, a tentativa de inserir humor em momentos dramáticos é deslocada e ineficaz, criando um tom desconexo em várias cenas. Essas conveniências narrativas, que tentam suavizar o peso de uma história já dramática, enfraquecem ainda mais o enredo.

    Apesar de seus problemas, “Vitória” ainda consegue gerar algum nível de entretenimento, principalmente devido à força do personagem de Joana e o fato que inspira a trama. A história, embora mal explorada, continua fascinante.

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    Vitória I Conspiração Filmes


    No final, o filme não chega a ser uma grande tragédia, mas também não atinge seu potencial máximo. A atuação de Fernanda Montenegro e o impacto do caso real são os únicos elementos que impedem “Vitória” de ser uma completa, perdoe o trocadilho, derrota.

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  • CRÍTICA | Invencível entrega sangue nessa 3º Temporada pra quem sentiu falta da outra vez

    CRÍTICA | Invencível entrega sangue nessa 3º Temporada pra quem sentiu falta da outra vez

    Invencível fecha o seu escopo para uma trama mais sólida, contudo, não deixa de abrir algumas portas que se mantêm abertas ao final.

    Depois de ter matado Angstrom Levy, Mark Grayson busca treinar para ser melhor, alcançando novos potenciais para se preparar contra a raça alienígena viltrumita que pretende dominar a Terra. No entanto, ao descobrir que o agente Cecil tem agido pelas suas costas, o herói se vira contra e decide fazer tudo sozinho.

    No decorrer da temporada, o roteiro sabiamente se prende aos conflitos que Mark tem em sua vida amorosa, familiar e heroica, buscando se aproximar da Eve, treinar seu irmão Oliver e compreender como conciliar a vida pessoal com o momento que precisa ser “Invencível” (momento pra abertura da série agora hahahah). Tudo isso traz foco, cada episódio apresenta um problema e o resolve, sempre indicando que o protagonista está evoluindo como pessoa.

    Portanto, é possível dizer que a terceira temporada consegue ser a mais divertida de se assistir, já que a história não só anda mais depressa com os assuntos que propõe, como vilões que surgem ou retornam são resolvidos no mesmo capítulo. Algumas vezes, isso incomoda, o penúltimo episódio da temporada tinha uma oportunidade alta de fazer algo épico, mas se perde com tantos núcleos impostos em menos de uma hora de duração. Já em outras, o espectador recebe algo de bom grande, com o sexto episódio criando um dos melhores vilões que a série apresentou até então.

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    Invencível | Prime Video

    Com essa deixa em mãos, mesmo que temas importantes como o valor da vida e a superação de um trauma sejam abordados, o seriado mesmo focado em seu protagonista, acaba não trazendo uma direção precisa de onde quer chegar, visto que os problemas plantados no inicio são deixados de lado e o final apenas traz um inimigo atrás do outro chegando, sem relacionar com antagonistas que apareceram no meio da temporada e não trouxeram muita relevância para a obra em sua completude. E sim, me refiro à trama de Allen.

    Aquele que conhece os quadrinhos do qual o programa adapta pode responder que estão preparando terreno para o futuro, que isso vai ser compreensível na outra temporada. Só que de nada adianta fazer isso se a promessa não vai ser cumprida na mesma temporada. O vilão da semana é comum numa obra televisiva de super-herói, só que quando isso bagunça com o percurso que vai seguir, era melhor que tivesse sido posta de lado e reposicionada para a próxima vez.

    Mesmo assim, há um elemento fundamental que torna o seriado prazeroso de se assistir e esse elemento é o tratamento dos personagens. Todos são humanos demais, trazendo camadas que os distanciam do óbvio, redimindo alguns que irritavam no principio e tornando compreensíveis àqueles que tomam as atitudes mais extremistas. Acompanhar cada um, fazendo parte daquele grande universo, é confortável, quase nostálgico, sem nunca soar desnecessário. É aquela gordura que não pode faltar na carne.

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    Invencível | Prime Video

    A animação do seriado não apresenta melhorias, não chama a atenção e, em algumas vezes, parece que faltou página pra esboçar mais movimentos em algumas cenas, como quando o herói veste seu novo uniforme. Porém, quando se trata dos combates, o desenho fica frenético como nunca, com a câmera viajando entre o espaço, avançando com os ataques e a montagem formidavelmente intercalando cada acontecimento de um jeito impactante, que fica complicado de não imergir e vibrar com o que acontece, principalmente se tratando dos ataques que colocam ossos para fora do corpo.

    Invencível se mantém firma como uma das melhores séries de super-herói, indicando que ainda tem muitos assuntos para explorar e muitas novidades para proporcionar mesmo naqueles que estão cansados do gênero. Os assuntos abordados são profundos, trabalhados com cuidado, e mesmo quando a trama avança rápido demais, deixando algumas coisas de lado, ela também indica que quando tudo estiver terminado, a série vai ter feito questão de não permitir que um fio fique solto por aí. Não teve um vilão da temporada, mas pode ter certeza que o futuro não deixará Mark Grayson descansar.

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  • CRÍTICA | Código Preto é a definição de um filme de espionagem

    CRÍTICA | Código Preto é a definição de um filme de espionagem

    Em poucos minutos, Código Preto já escancara sua personalidade, o suspense e como ser agente não é pra qualquer um.

    “Código Preto” é um termo utilizado pelos personagens para situar alguém que não podem falar sobre uma missão ou acontecimento em específico, por ser confidencial demais. Então, quando George (Michael Fassbender) começa a desconfiar de sua mulher, Kathryn (Cate Blanchett), estar envolvida em um caso que pode matar milhões, ele a questiona sobre o que vai fazer numa viagem e ela o responde com… bom, já sabe né?

    A partir disso, uma investigação metódica começa a ser realizada, no qual acompanhamos tudo pelo ponto de vista do protagonista, como se manter calmo, fazer uma investigação sem deixar pistas, manter a vida pessoal distante do trabalho e por aí se segue. Tudo envolvendo um grupo de personagens que, após um tenso jantar, vão ganhando cada vez mais escopo com o decorrer da narrativa, interligando cada mínima ação que poderia ser fútil, mas demonstrou um forte senso de roteiro que não deixaria pontas soltas.

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    Código Preto | Universal Studios

    Aproveitando que estamos falando deles, todos são bem interessantes e apresentam características que os diferem, os atores conseguem passar aquela impressão que o diretor busca, seja em um parecer mais certinho e outro soar mais babaca. Entretanto, o modo como usa a Clarissa (Marisa Abela) incomoda pela forma superficial de uma mulher que sente forte atração pelo protagonista e passa boa parte do longa-metragem deixando isso claro, mesmo que em horas inconvenientes, para no fim não levar a nada. Ainda que consiga ver o do porquê, seja para trazer humor ou vantagem na investigação de George, faltou algumas outras amostras de personalidade para que não soasse vazia.

    Já o casal principal transpira aquela energia de “Sr. & Sra. Smith”, você gosta, sente química, entende o que os diferencia dos outros espiões, nota a lealdade de um para com o outro, mas se questiona em quem pode realmente confiar. Os atores conseguem transparecer sabedoria no modo de agir e pelo que falam, é possível ver o quanto se conhecem, da mesma forma que com muita sutileza, nos entregam suas dúvidas e desconfianças, de um para com o outro, o que deixa tudo ainda mais interessante.

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    Código Preto | Universal Studios

    Tratando-se da parte técnica, não tem nada mais prazeroso de se ver do que acompanhar uma câmera que segue o personagem, viaja pelo ambiente sem cortes, trazendo elegância ao projeto e o tom certo que a obra precisa para aos poucos imergir quem assiste nela. A trilha sonora passa uma sensação agonizante e charmosa, não é que ela cause tensão, mas a sensação fria de um ambiente que lida com situações alarmantes e talvez a pessoa que mais ame esteja por trás do perigo.

    O lado extremamente divertido de acompanhar a obra é que ela não parte pra ação, não tem uma grande cena de luta ou aquele acontecimento grandioso que muitos filmes de espião se deixam levar, dos quais gosto muito. Código Preto busca a todo momento nos colocar neste suspense, o suspense de não saber em quem confiar, de que as coisas estão piorando, mas a direção que está seguindo pode ser errônea. E quando você pensa que o filme vai seguir pra um caminho previsível, certo problema é resolvido e a narrativa parte para outra direção. Concluindo sem proporcionar muitas emoções, mas satisfazendo quem curtiu toda a jornada.

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  • CRÍTICA| Plankton: O Filme é uma parcela pequena de seu potencial

    CRÍTICA| Plankton: O Filme é uma parcela pequena de seu potencial

    Apesar de sua interessante premissa, Plankton: O filme não demonstra o quão genial o vilão realmente consegue ser

    Em 2004, foi lançado Bob Esponja: O Filme (2004, Stephen Hillenburg), um longa metragem que apresentava um grandiosidade digna da tela grande, considerando fatores como o grau de perigo em que os personagens estavam envolvidos, a força emocional do conflito de Bob Esponja entre ser um garotinho e ser um homem, músicas icônicas em diversos aspectos e um dos poucos momentos em mais de 20 anos de aventuras náuticas no qual realmente enxergamos Sheldon J. Plankton como uma verdadeira ameaça.

    Introduzido no terceiro episódio da 1º temporada, Plankton e sua relação com Eugene Sirigueijo trouxeram alguns dos pontos altos de toda a série Bob Esponja Calça Quadrada, de casos no tribunal até o gás gugu-dadá, Plankton é um personagem excelente por muitos motivos, seu tamanho, seu potencial cômico, seu hiperfoco na fórmula do hambúrguer de siri, seu egocentrismo e seu relacionamento com sua esposa computador: Karen. 

    Ao longo de 25 anos de série, Plankton demonstrou diversas vezes seu potencial cômico e vilanesco, porém, além do filme de 2004, poucas vezes realmente sentimos que ele era realmente uma ameaça. Após mais de duas décadas de série, 3 longas metragens cinematográficos nos quais um ele realmente é uma ameaça e nos demais um aliado, e um filme spin off de Sandy Bochechas que o unicelular mal aparece, Plankton finalmente apresenta sua chance de brilhar em seu próprio filme.

    Apesar de ser superior à produção A Missão de Sandy Bochechas (2024, Liza Johnson), o filme comete alguns erros que impedem o filme de alcançar tanto seu potencial cinematográfico, quanto seu potencial como projeto isolado de um dos personagens mais interessantes da Fenda do Biquíni.  

    Para os fãs de Bob Esponja, que acompanharam a série desde o começo, não é segredo nenhum que ocorreu uma queda de qualidade nos episódios mais recentes, assim, Plankton: O filme é um filho desta nova geração de episódios

    Apesar de uma premissa muito boa e usufruir de uma metalinguagem extremamente aceita, incluindo discussões internas sobre a própria estética do filme, como cenas em que Plankton conversa diretamente com o cinegrafista, a produção apresenta uma estética em 3D que impede os personagens de realmente demonstrarem suas loucuras náuticas.

    Plankton

    Sheldon J. Plankton em cena de Plankton: O Filme- Divulgação NETFLIX

    Os momentos de flashback/delírio de Plankton, são as ocasiões em que a animação realmente entrega seu potencial por conta de sua forma mais experimental e usos interessantes do 2d, porém, em seu terceiro longa metragem nesta estética tridimensional, sinto cada vez mais que a essência de Bob Esponja está se perdendo por conta dela.

    Não é somente o estilo de animação que tira a essência da Fenda do Bíquini, Plankton: O Filme prova que cada vez mais os personagens estão virando caricaturas de si mesmos, um exemplo é o trio de amigas compostas por: Sra. Puff, Pérola e Sandy.

    Com exceção da esquila texana que é praticamente uma co-protagonista em diversos episódios, Pérola e Sra. Puff, apesar de interessantes dentro de seus próprios mundos, podem ser considerados personagens série D, dentro de todo o lore da fenda do Biquíni, e não apresentam destaque maior dentro de toda a produção e nem mesmo da série como um todo.

    Pérola é a filha mimada e adolescente do Seu Sirigueijo e a Sra. Puff é a professora de direção de Bob Esponja, porém, em nenhum momento ao longo do filme, estas características cruciais se sobressaem, tornando-as vazias de caráter e personalidade.

    O trio de amigas está presente para ocasionar um contraponto ao vilão unicelular, na medida que Karen, a grande vilã do filme, convivia diariamente com elas, porém, apesar de uma premissa interessante, este trio acrescenta pouco à história como um todo.

    É estranho pensar como um filme focado em Plankton, que apresenta como nêmesis estabelecido o nosso crustáceo favorito, foca em um trio sem carisma, afinal, as melhores interações do vilão são com o Senhor Sirigueijo, deixado de lado ao longo do filme, e com o próprio Bob Esponja.

    Plankton

    Bob Esponja e Sheldon J. Plankton em cena de Plankton: O Filme-Divulgação NETFLIX

    Desde sua introdução, Plankton sempre teve uma relação ambígua com a esponja amarela, desde interações marcantes como a música “Diversão” e momentos cômicos de união como no filme Bob Esponja: Herói Fora da Água (Paul Tibbit e Mike Mitchell , 2015), a relação entre a inocente esponja e o egocêntrico vilão, sempre trouxe humor, o que não é exceção neste filme, aonde vemos, pela primeira vez em muito tempo, Bob Esponja perdendo a paciência com alguém.

    Falando em música, Plankton: O Filme apresenta algumas das melhores sequências musicais de Bob Esponja em muito tempo, porém, isto não é o suficiente para um filme que espreme o seu sucesso por meio de referências e arquétipos vazios de icônicos personagens, incluindo mais menções do que deveria ao clássico filme de 2004.

    Com diversas referências aos 25 anos de episódios, Plankton: O Filme diverte os fãs, porém, falha em inovar ou melhorar aquilo que veio antes, parecendo em certos momentos um episódio estendido da série, do que realmente um filme no escopo cinematográfico que Bob Esponja realmente merece, do mesmo modo que Wallace e Gromit: Avengança (2025, Nick Park, Merlin Crossingham), a produção é marcada por ser um filme exclusivamente para streaming, sem a força de um texto ou apostas específicas para a tela grande.

    Ainda este ano teremos o 4º filme focado exclusivamente em Bob Esponja, já que os dois últimos foram spin offs focados em Sandy e Plankton respectivamente. Com Derek Drymon, responsável pelo roteiro do primeiro filme, no comando de Spongebob Squarepants movie: Search for Squarepants, talvez conseguiremos retornar a uma época mais simples de Bob Esponja, pois, se Plankton: O Filme prova algo, é que estamos bem longe daquilo que fez a série tão icônica para início de conversa.

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  • CRÍTICA | Na Sua Pele é um clichê sem alma e sem sal

    CRÍTICA | Na Sua Pele é um clichê sem alma e sem sal

    Alguns filmes trazem histórias que, embora clichês, conseguem convencer e envolver o público, como é o caso do romance Diário de Uma Paixão ou a comédia Mulheres ao Ataque, ambos dirigidos por Nick Cssavetes. No entanto, quando falamos de Na Sua Pele, recém-lançamento do renomado cineasta, é o oposto.

    O filme conta a clássica história da menina rica, estudiosa e comprometida que se apaixona pelo típico bad boy. Rule (Chase Stokes) é o estereótipo ambulante do rebelde tatuador que não se envolve amorosamente com ninguém, enquanto Shaw (Sydney Taylor) sempre nutriu sentimentos secretos por ele. Após uma noite de festa, os caminhos dos dois mudam, e agora precisam lidar com suas diferenças, o preconceito da família e a inevitável jornada rumo ao final previsível.

    Desde o primeiro minuto, o “Na Sua Pele” exala clichê. A narrativa é tão batida que o público consegue prever cada passo da trama nos primeiros dez minutos. Qualquer tentativa de reviravolta se perde em diálogos rasos e atuações apáticas. O casal protagonista não possui química alguma, e as interações entre eles são mecânicas, tornando impossível torcer por esse romance forçado.

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    Repdoução

    A história ainda tenta se apoiar na tragédia familiar de Rule – a morte de seu irmão –, um elemento que poderia adicionar profundidade emocional à trama. No entanto, essa abordagem é completamente desperdiçada. O luto, a relação conturbada com a família e qualquer possibilidade de comoção são apenas citados superficialmente, sem nunca impactar o espectador. O único sentimento despertado ao longo do filme é a vergonha alheia, causada pelos diálogos vazios e pela direção sem inspiração.

    Se a intenção de Na Sua Pele era ser um romance jovem emocionante, o resultado final é um festival de cenas recicladas de outros filmes teens – mas sem o carisma, a emoção ou qualquer inovação. Tudo soa como uma tentativa barata de reproduzir sucessos do gênero, mas sem qualquer esforço genuíno para criar algo memorável.

    Com atuações que variam entre robóticas e caricatas, um roteiro desprovido de qualquer originalidade e uma direção preguiçosa, Na Sua Pele já pode ser considerado um forte candidato ao pior filme de 2025 – e ainda estamos em março. Se você quer desperdiçar 90 minutos da sua vida, ainda assim existem opções melhores. Evite.

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  • CRÍTICA | Round 6 Mantém o mesmo nível de qualidade da primeira temporada, o que é raro.

    CRÍTICA | Round 6 Mantém o mesmo nível de qualidade da primeira temporada, o que é raro.

    Round 6 não se torna paródia da primeira temporada, mesmo utilizando situações já vistas antes.

    Muitas séries quando ganham renovações dos estúdios, acabam se tornando paródias de suas temporadas anteriores. Isso pode ser visto em Game of Thrones, Lost, Prison Break e até mesmo na série brasileira 3%, utilizando arcos e situações similares de forma tão repetitiva que se tornam maçantes de assistir. Felizmente, esse não é o caso da segunda temporada de Round 6, por pouco.

    O criador da série Hwang Dong-hyuk é o roteirista e diretor de todos os episódios e sabe bem como evoluir a série, flertando com ela mesma, mas sem se deixar levar. Logo no primeiro episódio ele nos colocar a par do que aconteceu com os personagens através de diálogos nem um pouco sutis do policial Hwang Jun-ho com um colega de trabalho e o protagonista Gi-Hun com um funcionário.

    A série mantém o humor da primeira temporada, mas dessa vez, é através desses personagens secundários que vemos essa leveza e não do protagonista. O Gi-Hun visivelmente abalado por todas as mortes que presenciou nos jogos, tem um pesar enorme. O ator, Lee Jung-jae traz não somente para o rosto, mas para o corpo (com ombros caídos e postura curvada) um Gi-Hun exausto e angustiado. Olhando para ele, nem parece o mesmo personagem vívido da primeira temporada.

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    Round 6 | Netflix

    Os episódios vão nos trazendo aos poucos de volta para aquele universo, abordando o recrutador e mostrando mais da personalidade daquele individuo, é através dele que o Gi-Hun entra em contato com o Front Man e consequentemente volta aos jogos. Chegando nos jogos somos apresentados á uma bela edição, mais frenética e com cortes diferentes da primeira temporada.

    Batatinha frita 1,2,3 é o único jogo que se repete com uma sensação de Deja vú, estamos no mesmo jogo, está tocando a mesma música, Fly Me To The Moon, e é o mesmo slow motion, o que diverge e nos da essa sensação, é que a música tem um ritmo diferente, a fotografia nos mostra ângulos não vistos antes e as situações não são iguais as mostradas da primeira vez, mas são similares a ponto de você reconhecer e pensar “parecido com o que aconteceu da outra vez”.

    Essa sensação é perceptível ao longos da série, mesmo os jogos não se repetindo, um bom exemplo disso é no episodio 4, em que o capítulo termina no meio do jogo, remetendo ao episodio 4 da primeira temporada, em que o jogo do cabo de guerra também tem sua conclusão no capítulo 5.

    Nessa temporada, ao final de cada jogo, os jogadores participam de uma votação para decidir se continuam os jogos ou não, essa é uma escolha excelente do criador Hwang Dong-hyuk, pois dialoga perfeitamente com a proposta da série, o ser humano banaliza sua própria vida e a vida do outro à ganho próprio. Nós somos apresentados a personagens cativantes com historia que trazem identificação ao público e entendemos o motivo de estarem ali, mas, também vemos o momento em que muitos deles abandonam a humanidade que tem para continuar os jogos.

    Somos mostrados que mesmo com a escolha de irem embora com dinheiro, a ganância por mais, na maioria dos personagens vai prevalecer, mesmo que muito precisem morrer para isso. Ao assistir, muitos falam: eu jamais faria isso. Mas será que não? Desesperado, devendo, com fome. Através dos personagens a série nos faz refletir sobre até onde nós iriamos se estivéssemos na mesma situação financeira que eles.

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    Round 6 | Netflix

    O líder disfarçado entre eles, tal como um lobo em pele de cordeiro, tem uma atuação tão convincente do Lee Byung-hun, que em certos momentos você esquece que ele que está comandando tudo aquilo. Reforçando fatos da vida do personagem que foram apresentados antes por sua mãe e irmão adotivos, descobrimos o seu motivo para sumir e entrar nos jogos, mesmo que pouco, mas temos um vislumbre de humanidade ao sermos contextualizados de sua vida.

    A segunda temporada sabe criar terreno para a terceira que chega dia 27 de Junho desse ano. Ela nos introduz sem pressa a vida dos personagens dentro dos jogos, nos faz refletir sobre suas escolhas e leva o espectador pelo braço até a rebelião no episodio final em uma cena de ação longa, mas não cansativa.

    Os novos episódios expandem a criatividade no texto, nos jogos, nas atuações, nos efeitos, na fotografia e na bela montagem dos episódios. Seu diferencial da primeira temporada é a originalidade, a primeira nos pega desprevenido e nos arremata de forma única, justamente porquê nunca vimos nada igual antes. A segunda cumpre seu papel em multiplicar à altura aquilo que já nos foi apresentado e deixar um gancho para uma conclusão satisfatória, que virá em breve creio eu.

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    CRÍTICA | O Brutalista não esconde a fragilidade do sonho americano

    Dirigido por Brady Corbet, O Brutalista não é sutil em sua crítica à ideologia estadounidense

    É tendência em algumas produções que apresentam tom político/crítico social, a finalização da produção com uma música irônica. Um exemplo é Vice (2019, Adam McKay), uma produção que discute os impactos que Dick Cheney, vice-presidente de George Bush, ocasionou nos EUA e no mundo, e que encerra com America (1957, Stephen Sondheim).

    Presente no musical West Side Story , a música é cantada por personagens Porto-Riquenhos, e, de modo irônico, critica a crença no modelo de vida norte-americano e seu trato para com os imigrantes. A música continua política e atual até os dias de hoje, principalmente após a reeleição de Donald Trump, mesmo com seu tom animado e festivo que permite uma interpretação satírica, o que caiu como uma luva nas mãos de McKay.

    De uma maneira semelhante, O Brutalista é um filme que também destrói o ideal norte-americano, de maneira ainda mais visceral do que Vice, por conta do fato de desta vez o nosso eu-lírico ser um imigrante. Semelhante ao filme de McKay, a música dos créditos de O Brutalista encapsula, de modo satírico, todas as críticas presentes no filme: One for You, One for Me (1978, La Bionda).

    Enquanto a música da década de 70 discute um ideal de companheirismo digno de comerciais de margarina, O Brutalista demonstra quão forte é esta crença em imigrantes que chegavam nos EUA buscando novas oportunidades, sonhos e um modo de se destacar no mundo.

    Logo em uma das primeiras cenas da ópera cinematográfica que é O Brutalista, somos apresentados a um navio cheio de imigrantes que chegam esperançosos nos EUA, acreditando que é a famosa terra bíblica que emana leite e mel, sempre com oportunidades novas e aberto à todos. Ao enxergarmos, logo na primeira cena do filme, a estátua da liberdade, um dos maiores símbolos do liberalismo norte-americano, filmada de ponta cabeça, já entendemos a subversão desta ideia de prosperidade, ditando o tom que o filme seguirá durante toda sua duração.

    O Brutalista

    Adrien Brody e Guy Pearce em cena de O Brutalista-Universal

    O Brutalista conta a história de László Tóth, Adrien Brody em um papel muito semelhante àquele que o premiu com o prêmio de melhor ator em O Pianista (2002, Roman Polanksi), um arquiteto que fugiu da Europa pós-segunda guerra e foi para a América com o objetivo de construir uma nova vida, porém, para alcançar seu sonho, ele acaba fazendo o pacto com um metafórico diabo.

    Tóth apresenta o sonho de deixar sua marca, de ser lembrado pela eternidade, assim, para alcançar seu objetivo, faz um acordo com Harrison Lee Van Buren, Guy Pearce em um dos melhores papéis de sua carreira, um milionário que o contrata para projetar um grande e ousado prédio.

    Tóth percebe que esta é a oportunidade de sua vida, assim, assume a ousada tarefa, sem perceber alguns nítidos sinais que ele é somente um “escravo egípicio”, trabalhando para estes faraós que almejam alcançar os céus.

    O filme é longo para a média, apresentando 3 horas e 35 minutos, porém, ele não perde ritmo, inclusive acelerando em seu final após uma interação desagradável entre Harrison e Tóth, que dita o resto da produção como um todo.

    Em quesito de narrativa clássica, podemos considerar que a jornada de Tóth se iniciou no positivo, acreditando que os EUA serão sua esperança de vida, porém, ao longo desta busca, sua jornada altera muitas vezes entre positivo e negativo, algo comum em grande parte dos heróis trágicos como Aquiles e Ulisses, e algo que Brady Corbet não esconde em nenhum momento.

    O Brutalista apresenta um prólogo, dois longos atos e um pequeno epílogo que finaliza com chave de ouro, assim, a produção pode facilmente ser enxergada como uma tragédia épica, em que um personagem luta contra todas as desavenças para se destacar, sempre para ser rebaixado e provado, vez atrás de vez, que ele não é bem vindo ali, a triste história de muitos imigrantes que vão para os EUA, até os dias de hoje.

    Em certo momento, o jovem e mimado Harry Lee, diz a frase que resume toda a luta social presente na produção: “Nós toleramos vocês”.

    Em O Brutalista não existe igualdade entre Tóth e Harrison, quando sua esposa chega da Europa junto com a sobrinha, elas também não são iguais, existirá sempre uma sombra que os impede de ser algo mais.

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    Cena de O Brutalista-Universal Pictures

    A jornada do herói trágico apresenta poucos descansos ao longo da produção, somos constantemente lembrados, antes mesmo de László cair na real, que este sonho americano de igualdade e destaque, é falso e utópico.

    O Brutalista apresenta uma fotografia espetacular, uma trilha sonora mestra que merece o Oscar, atuações primorosas de Adrien Brody, Felicity Jones e Guy Pearce, e uma reflexão necessária e nem um pouco sutil sobre a força que um sonho falho ainda apresenta na vida de muitas pessoas que tentam diariamente esta terra de leite e mel, para somente encontrar podridão e uma sociedade que a rejeita.

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  • CRÍTICA | Mickey 17 é uma ÓTIMA ficção científica com reflexões importantes pros tempos atuais

    CRÍTICA | Mickey 17 é uma ÓTIMA ficção científica com reflexões importantes pros tempos atuais

    Mickey 17 adapta um livro de uma forma mais simples e direta, talvez perdendo a oportunidade de explorar alguns caminhos, mas ainda cumprindo o que promete.

    Mickey 17 é um filme que ganhou a atenção rapidamente por ser dirigido pelo ganhador do Oscar de Melhor Direção por “Parasita (2019)”, Bong Joon-Ho, e pelo seu protagonista ser interpretado por Robert Pattinson, que desde a franquia Crepúsculo tem sabiamente escolhido seus próximos projetos. E a história já seria interessante por si só, já que em um futuro não tão distante, Mickey é considerado um ser “descartável” que cumpre missões para um colonizador e toda vez que morre, é trazido de volta em um novo corpo. Contudo, em uma certa expedição, acabou sobrevivendo, só que demorou tanto pra retornar na sua base que ao chegar… encontrou o Mickey 18.

    Algo bem interessante que dá pra falar sobre o filme de cara é sobre o seu humor, pois não se engane, mesmo que seja uma ficção científica que se passe em outro planeta, tenha alienígenas e debates políticos muito bem vindos para a atualidade, o gênero do filme é comédia. Não aquela comédia pastelona, de fazer a sala toda dar risada a cada minuto, mas aquela comédia ácida, estranha, que causa vergonha e muita curiosidade. Há um modo dos personagens reagirem e falarem, das câmeras irem se direcionando lentamente para uma situação ou da narração por cima do protagonista, que desperta caricatura e um ar de aventura distópica para o espectador.

    A presença da direção de câmera nesse aspecto é fundamental, porque o modo que a obra procura desenrolar, lembrando filmes juvenis e comédias românticas, onde a câmera foca em olhares apaixonados, momentos clichês, tal como um aspecto rápido de movimento em cenas catárticas, seja pro humor ou pra algo tenso, levam a obra nunca passar uma seriedade que talvez sua fotografia propagasse, com cores sem vida. No entanto, de acordo com os acontecimentos do filme, tendo em vista o final, essa ideia soa proposital pelo quanto Mickey 17 fica mais brilhante em seu final.

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    Mickey 17 | Warner Bros Pictures

    Isso não significa que qualquer pessoa vai ver o longa-metragem tranquilamente, pois ao se tratar de uma ficção, existe muita criatividade por parte de seres, evoluções, palavras e ideias que podem distanciar aqueles que gostam de algo mais pé no chão como um Blade Runner da vida. Ainda que tudo seja bem didático e explicado, por não haver tempo suficiente de tela para se apegar aos personagens ou de criar um final realmente climático, a obra deve decepcionar aqueles que aguardam algo comum.

    A jornada desse clone que encontra outro clone facilmente não pode ser considerada comum e isso é muito positivo. Diversos temas passam pela obra, falando sobre a importância da vida, o medo de morrer, a forma de enxergar um ser desconhecido, o colonialismo e a curiosidade inocente pelo novo, do qual alguns buscaram tirar vantagem e outro irão procurar se desenvolver. Como se não bastasse, sendo um universo totalmente novo, com diversas possibilidades, alguns acontecimentos na trama ao todo acabam por soarem vazias, sem muito fundamento, seja uma mulher perdendo o amor e rapidamente querendo outro ou os sonhos sombrios que são pontuados apenas ao final.

    Isso acabar por atrapalhar o filme que pareceu entregar muita informação, muitas narrativas para serem exploradas, mas não conseguiu ter tempo de fazer isso como um livro normalmente consegue entregar essa possibilidade. Seu ato final, entretanto, soa muito corajoso, fugindo da clássica guerra entre mundos que “Avatar (2009)”, por exemplo, o faz e trazendo uma mensagem mais positiva, simples, de como se resolver os problemas quando são mentes inteligentes ou modestas interagindo. A dificuldade para se resolver o problema não soou tão complicada quanto poderia, o que atrapalha no quesito de causar mais emoções em quem assiste ou de levar a se questionar o motivo para não enfrentaram o problema antes.

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    Mickey 17 | Warner Bros Pictures

    As atuações estão fabulosas. Robert Pattinson consegue em suas duas versões apresentar trejeitos e mudanças vocais que realmente levam a quem assiste enxergar duas pessoas diferentes, além de apresentar muita fluidez para a comédia, principalmente por parte da sua fisicalidade. Enquanto isso, Mark Ruffalo rouba a cena como um líder estúpido e preconceituoso que consegue emanar um pouquinho de cada figura pública com dinheiro que se encontra em qualquer época, conseguindo ser engraçado pelo modo com a qual claramente está zombando de tais figuras, da mesma forma que imprime o senso de perigo que uma pessoa como essa pode vir a passar quando deixam ela fazer o que quiser.

    Com isso, Mickey 17 diverte àqueles que estiverem dispostos a acompanhar uma aventura descompromissada que traz um universo criativo, boas atuações, um belo trabalho de composição para o universo, tanto nas roupas quanto nos efeitos visuais, e uma bela mensagem de como o mundo deveria agir, com menos preocupação na etnia divergente, e mais atenção para uma paz acolhedora. Pode ser que não desperte muitas emoções, mas facilmente deixa aquele gostinho de querer ficar mais um tempinho com aqueles personagens.

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  • CRÍTICA | Better Man é uma das MELHORES cinebiografias atuais

    CRÍTICA | Better Man é uma das MELHORES cinebiografias atuais

    Better Man é um ótimo exemplo de como contar a história de um artista sem soar brega, mediano ou esquecível.

    Better Man: A História de Robbie Williams se trata exatamente do que seu subtítulo já indica. E assim, pode haver o questionamento: “Quem é Robbie Williams?”

    Minha resposta é : “Se souber, ótimo! Se não, descubra assistindo o filme!”

    A história de Robbie não é muito diferente das outras que foram vistas com outros cantores nos últimos anos. Ele tinha um sonho, viu potencial na voz, ansiou pela fama e caiu no mundo das drogas no meio da jornada. O grande diferencial está no modo escolhido pelo diretor Michael Gracey para retratar essa personalidade forte e transportar o espectador para esse mundo.

    Durantes suas duas horas, acompanharemos Robbie Williams como um macaco. A ideia veio do próprio diretor ao questionar o cantor como ele se enxergava no decorrer de sua carreira e assim, não dá pra só elogiar o fato de que é possível encontrar o olhar do artista através do efeito do animal, como aplaudir o impacto positivo que isso traz para Better Man.

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    Better Man | Diamond Films

    Ser um macaco destaca o personagem dos outros, mas felizmente também aproxima o espectador. Fica claro o quão destoante aquele homem se sente dos outros, dos amigos e parentes, tal como chama a atenção quando o curto período numa boy band é abordado. As bandas com diversos garotos, mesmo que famosas, tem aquele problema de se ter um padrão. Todos são parecidos, os nomes são confundidos e etc.

    Isso não acontece com Robbie. Fica praticamente impossível tirar os olhos dele. Ainda melhor do que isso, o artista apresenta ter uma famosa doença e ela é representada a partir desse ser selvagem, como um bicho que o caça, persegue e atormenta. Vozes da cabeça representadas por uma face que tal qual pode ser vista como fofa e agradável, também pode ser irritante e ameaçador. Exemplificando muito bem um instinto animalesco que deve ser combatido.

    Com isso, a obra aproveita para brincar com algo mais lúdico e menos pé no chão, lembrando o que Rocketman, de Dexter Fletcher, fez ao utilizar o uso de drogas como uma desculpa para as transições e partes irreais. Aqui, é possível ver por esse lado também, mas a presença do macaco em si já se deixa aproveitar dos efeitos visuais, que estão muito bons, para quebrar a quarta parede, trazer a ação e aproveitar transições, permitindo cenas mais longas com a aparente mesma câmera.

    A montagem se mostra outro ponto positivo, porque mesmo com diversos cortes, plano e contra-plano. O filme nunca soa uma bagunça, corrido ou difícil de compreender o que está havendo na tela. A coreografia de cenas e dança é excelente, sabendo quando entregar o momento pra brilhar ou apresentar uma música famosa do artista, que quando posta, casa perfeitamente com o que a história tá contando.

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    Better Man | Diamond Films

    Essa cinebiografia traz uma alegria por esclarecer o nível que se pode alcançar para falar sobre a vida de alguém, entregando não apenas um filme divertido e dinâmico, mas um roteiro que sabe estudar e trabalhar muito bem o seu personagem. Porém, traz até uma tristeza ao pensar que outros artistas mais famosos, não mais importantes, tiveram adaptações medíocres. Pode até ter faltado dinheiro pra efeitos, locações e figurantes, mas pode ter certeza que um bom roteiro com uma direção artística faria muita diferença.

    Fama e perdão podem ser considerados os temas principais do longa-metragem, explorando perfeitamente nossa humanidade, o quão próximo estamos de errar e de se deixar levar por uma visão estabelecida por um parente. Só que além da dor e possível desejo de vingança, que o próprio público pode sentir, a beleza da vida se apresenta em encontrar um jeito de conviver com os erros e dar uma segunda chance para quem lhe fez mal.

    Better Man: A história de Robbie Williams pode não apresentar muitas novidades em sua jornada, mas a forma como a desenvolve, conta sobre ela, dando o tom certo de encaixar as músicas, podendo surpreender quem conhecia apenas o som e não quem cantava, como também emocionando sem abusar do melodrama, faz desta uma obra que desperta a vontade de aplaudir ao final da sessão.

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  • CRÍTICA I Um Completo Desconhecido traz a jornada de Bob Dylan, do Folk ao Rock

    CRÍTICA I Um Completo Desconhecido traz a jornada de Bob Dylan, do Folk ao Rock

    James Mangold convida o espectador a uma imersão completa na transformação do astro da música, nos anos 60.

    As cinebiografias de cantores têm sido um gênero recorrente no cinema, retratando a trajetória de grandes nomes da música. Produções sobre ícones, como Elvis Presley, Elton John e Freddie Mercury, mostram como Hollywood se dedica a contar histórias de artistas que marcaram épocas. Nesse contexto, “Um Completo Desconhecido” se destaca por sua abordagem singular de Bob Dylan, explorando uma fase específica de sua carreira e mergulhando na complexidade do artista.

    Dirigido e escrito por James Mangold (“Logan”), o longa é adaptado do livro “Dylan Goes Electric!” (2015), de Elijah Wald (“Jelly Roll Blues”). A obra não é apenas mais uma biografia convencional, mas sim um estudo profundo sobre o músico, concentrando-se em um recorte preciso de sua jornada entre 1961 e 1965.

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    Um Completo Desconhecido I Searchlight Pictures

    Nesse período, Dylan chegou a Nova York para encontrar seu ídolo, o cantor Pete Seeger (interpretado por Edward Norton), e atravessou uma fase de grandes transformações no cenário do Folk. A produção, que enfrentou atrasos por conta da pandemia, só chegou aos cinemas graças ao empenho de Mangold, que priorizou o projeto e o levou à Searchlight Pictures.

    Ao contrário de muitas cinebiografias que seguem uma linha cronológica simples ou uma narrativa de “origem”, Mangold opta por focar em um momento crucial da vida de Dylan, evitando o formato “filme legado”, muito comum nas produções atuais. O diretor traz um momento de incertezas, antes da explosão artística de Dylan, explorando o processo de transformação do intérprete e sua busca por um espaço no mundo da música.

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    Um Completo Desconhecido I Searchlight Pictures


    O papel de Dylan, aqui, é vivido com maestria por Timothée Chalamet (“Me Chame pelo Seu Nome”), que, em uma das melhores performances de sua carreira, captura tanto os maneirismos quanto os dilemas emocionais do cantor. Chalamet transmite a angústia de Dylan, suas dúvidas sobre o amor, a carreira e a fama. O longa o apresenta como um “completo desconhecido”, antes de sua ascensão, evidenciando sua luta interna e os desafios que enfrentou até alcançar a consagração.

    Mangold também reconstrói com precisão a Nova York dos anos 60 e o efervescente cenário do Folk. Um dos elementos centrais da trama é o uso da guitarra elétrica por Dylan, que gerou grande polêmica na época. Esse ato se torna um símbolo de inovação e resistência, refletindo a transição do Folk para o Rock e a discussão sobre autenticidade na música. Além disso, o filme propõe uma reflexão sobre a relação entre fã e artista, abordando a dificuldade de Dylan em lidar com a fama e sua sensação de ser reduzido à figura de apenas “servidor do público”.

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    Um Completo Desconhecido I Searchlight Pictures


    Apesar de ser um projeto bem executado e uma homenagem bem-vinda a um dos maiores ícones da música, o longa, infelizmente, peca por um distanciamento emocional. Faltou um maior aprofundamento nas reflexões pessoais de Dylan, especialmente no que diz respeito aos seus sentimentos internos e ao impacto de sua obra. Contudo, isso não impede o filme de se destacar, pela sua excelente recriação da época e pela atuação brilhante de Chalamet.

    Em suma, “Um Completo Desconhecido” não busca ser uma obra espetacular, mas cumpre sua proposta com precisão. É uma homenagem fiel a Bob Dylan, com uma narrativa focada e uma produção técnica impecável, que toca diretamente os fãs da música Folk e do cantor.

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  • CRÍTICA| O Homem-Cão usa o ridículo para cativar o público infantil

    CRÍTICA| O Homem-Cão usa o ridículo para cativar o público infantil

    Dirigido por Peter Hastings, O Homem-Cão prova quão mutável a Dream Works consegue ser

    Em 2001, Shrek (2001, Andrew Adamson, Vicky Jenson) se tornou a primeira animação a ganhar o Oscar de “Melhor Filme de Animação”. Produzido por um estúdio criado em 1994 por Steven Spielberg, David Geffen e Jeffrey Katzenberg, o filme abriu portas para muitos outros que viriam, tanto em quesito técnico por conta de sua animação em 3D que diferenciava a estética “perfeita” de filmes da Disney, quanto em questão de sátira e um humor auto-referencial que até os dias de hoje, a Disney ainda não usa eficientemente.

    Ao longo de sua história, a DreamWorks lançou sucessos como Madagascar (2005, Eric Darnell, Tom McGrath), Kung Fu Panda (2008, Mark Osborne, John Stevenson), e o recente O Robô Selvagem (2024, Chris Sanders), porém, diferente da Disney, a DreamWorks é conhecida por ousar mais em seus filmes, não se baseando em somente uma fórmula na busca pelo entretenimento, e aproveitando o formato do filme para atuar como uma sátira do gênero, trazendo, por consequência, histórias mais interessantes e personagens moralmente mais complexos do que filmes produzidos pelo estúdio do rato.

    Por bem ou por mal, a DreamWorks sempre correu mais riscos, com resultados variáveis, em filmes que vão de bizarros como Bee Movie (2007, Steve Hickner, Simon J. Smith), clássicos para todas as idades como Como Treinar o Seu Dragão (2011, Chris Sander, Dean Deblois) e filmes direcionados para um público infantil como O Homem-Cão (2025, Peter Hastings).

    Peter Hastings não é estranho para a comédia visual usada em O Homem-Cão, responsável pelo criação de nada mais, nada menos, que a série clássica dos Animaniacs (1993-1997, Tom Ruegger), Hastings usa seu histórico com maestria, produzindo mais comentários metalínguisticos e visuais do que se consegue pegar em somente uma assistida, grande parte funcionando de modo eficaz.

    Por conta disso, a comédia é um dos principais focos de O Homem-Cão, juntamente com uma animação descendente de filmes como Homem-Aranha no Aranhaverso (2018, Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman) e filmes do próprio estúdio como Gato de Botas 2: O Último Pedido (Joel Crawford), em que a animação é muito mais fluida e se encaixa para o projeto desejado, diferente de um 3D padrão e chapado tão comum em filmes da Disney.

    O Homem-Cão

    Cena de O Homem-Cão- Divulgação Universal Pictures

    Enquanto Gato de Botas 2: O Último Pedido usou esta estética para remeter aos livros de contos de fadas, O Homem-Cão a usou para remeter à estética marcante dos quadrinhos de Dav-Pilkey, inclusive em sua composição visual e cinematográfica, além do uso constante de marcas clássicas de quadrinhos como onomatopeias de diferentes estilos e uma história tão ridícula que não se consegue levar à sério.

    Baseado na série em quadrinhos de Dav-Pilkey, O Homem-Cão conta a história de um policial e seu ajudante canino que são costurados em um só corpo após um acidente. Experiente em lutas marciais e combate ao crime, sua missão se baseia em capturar seu arqui-inimigo: o gato Petey, ao mesmo tempo, que lida com a solidão de uma nova vida como um híbrido canino.

    Petey e Homem-Cão são espelhos um do outro, ambos criaturas solitárias, porém, tomaram caminhos contrários, um para a vilania e outro para o bem. Na verdade, vilania é um termo errôneo para definir Petey, ele está somente quebrado. A mensagem trazida por Hastings é semelhante, porém, menos explorada do que aquela trazida em Lego Batman: O Filme (2017, Chris McKay).

    A diferença entre o filme de McKay e o filme de Hastings é o contato anterior que o público apresentava com seus personagens, a jornada de Batman e Coringa é semelhante à jornada de Homem-Cão e Petey, porém, a primeira dupla é extremamente conhecida e amada, a segunda pode ser amada por um público diminuto, mas, é bem menos conhecida, assim, dificultando a construção do drama na medida que esta relação herói e vilão deve ser explicada desde o começo.

    O core dramático está presente durante toda a duração de O Homem-Cão, porém, não é devidamente explorada em nenhum momento, mesmo para um filme infantil, acredito que valeria a pena ter explorado melhor a diferença entre Petey ser realmente um vilão ou estar somente com a bússola moral quebrada, algo que é colocado em xeque quando aparece seu pai e visto principalmente em sua relação com Pequeno Petey.

    O paralelo entre dois solitários que tomam caminhos distintos na vida, um que na vilania e outro que acaba um herói, caso tivesse sido melhor explorado, poderia levar o filme à novos patamares na medida que ensina às crianças uma lição que somente é tangenciada: “o mundo é cruel, mas, você não precisa ser também”. Apesar de utópica, é uma de tantas mensagens fundamentais que Pilkey transmite com seus marcantes personagens.

    Com menos de uma hora e 30 de duração, ao final do dia podemos falar sem medo que o forte de O Homem-Cão não é a sua narrativa, afinal, a produção se encerra com kaijus gigantes destruindo a cidade, algo extremamente cansativo e clichê para filmes do século XXI. Seu forte é o entretenimento lunático. A quantidade enorme de piadas, desde gags visuais e de ação, referências à outros filmes e piadas um pouco mais adultas, marca de filmes da DreamWorks, e momentos dramáticos pontuais, como a cena em que Petey olha as estrelas com Pequeno Petey, permite um divertimento para todas as idades.

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  • CRÍTICA| Emília Perez é uma confusão superficial

    CRÍTICA| Emília Perez é uma confusão superficial

    Dirigido por Jacques Audiard e com 13 indicações ao Oscar, Emilia Perez é um filme confuso, chato e polêmico que lida de modo simplista com questões importantes.

    Esta semana no trabalho estávamos conversando sobre superficialidade e chegamos em Emily Em Paris (Darren Star, 2020), uma série da NETFLIX, criada por norte americanos, que passa uma visão estereotipada da França, porém, que cativa o público por conta de sua construção água com açúcar, romântica, e a presença cativante de Lily Collins. Nativos franceses já se pronunciaram contra a série, entre os principais motivos estão a visão clichê e a falta de representação real da cidade de Paris.

    Coincidentemente, ou não, o francês Jacques Audiard lançou o sonoramente parecido: Emília Perez. Um filme também recheado de esteriótipos, clichês, mensagens pouco exploradas, músicas insuportáveis, e que do mesmo modo que Emily Em Paris não é um bom parâmetro para conhecer a França, Emília Perez se torna o pior parâmetro para conhecer o México.

    Pronunciamentos do diretor Jacques Audiard como não ter pesquisado previamente sobre o México, e a fala: “espanhol é idioma de pobres e imigrantes”; até pronunciamentos vocais e contraditórios de Selena Gomez e principalmente Karla Sofía Gascón, auxiliaram no surgimento de um gosto amargo ao se discutir a produção.

    Emilia Perez

    Karla Sofia Gascón e Zoe Saldana em cena de Emilia Perez- Divulgação NETFLIX

    Após comentários polêmicos de Gascón, como que a equipe das redes sociais de Fernanda Torres a estava difamando, diversos tweets antigos foram descobertos e que demonstravam um comportamento ofensivo, da atriz, para com mulheres muçulmanas, o Islã e até mesmo o caso de George Floyd. Karla Sofia Gascón perdeu muita força e credibilidade, antes com crédito por ser a primeira mulher trans à ter chances de levar o Oscar de Melhor Atriz, agora provavelmente não ganhará nada.

    A equipe do filme abandonou a sua protagonista, a NETFLIX cortou laços com a atriz e atualmente baseia o marketing de Emilia Perez em Zoe Saldana; Jaques Audiard se pronunciou que é indesculpável o que Karla Sofia fez, porém, ao receber um prêmio no Critics Choice Awards, a agradeceu.

    Apesar de todas as confusões e polêmicas que o filme apresenta, esta hipocrisia e o abandono de sua protagonista por parte da produtora e da equipe, incluindo Zoe Saldana e o diretor Jaques Audiard, é inadmissível, ainda mais estando tão perto da premiação do Oscar. Por mais complicados que tenham sido seus pronunciamentos passados e presentes, não é correto o que a indústria está fazendo com Karla Sofia Gascón.

    Ao analisar a produção isoladamente, deixando de lado as polêmicas, o fato dele ser o candidato que possa impedir o Brasil de ganhar o Oscar de Melhor Filme Internacional, ou qualquer outro fator externo, somente analisando a arte por si: chegamos à conclusão que o filme continua sendo muito ruim.

    A primeira cena de Emilia Perez envolve mariachis neon, um susto que já dá o parâmetro para o musical que se segue, ou melhor, para esta opereta. Canções são intercaladas com diálogos falados/cantados. A cena em que Zoe Saldana conversa com o médico é a prova disso. Ambos estão conversando e sem preparação prévia nenhuma, o médico inicia o processo de falar cantado, algo que atordoa o público, principalmente pela letra que é recheada de preconceitos de gênero, algo constante durante toda a duração de Emilia Perez.

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    Zoe Saldana e Karla Sofía Gascon em cena de Emilia Perez- Divulgação NETFLIX

    A história de Emilia Perez tem como gatilho narrativo a jornada de Rita Mora, Zoe Saldana, uma advogada que recebe a missão de auxiliar um líder de cartel em seu desejo de se tornar mulher. Com a presença de músicas que aparentam sair de um delírio coletivo, como La Vaginoplastia, o filme tenta abordar tópicos importantes com o intuito de ganhar a atenção e o carinho dos críticos, ignorando a opinião do grande público que grita quão terrível Emilia Perez realmente é.

    Emilia Perez é um filme que apresenta uma fotografia escura e plástica, atuações que variam das boas, como Zoe Saldana, até as terríveis, como Selena Gomez, uma atriz que foi colocada no filme com o simples intuito de atrair público. Um musical com nenhuma música realmente atraente que é plano de fundo para um filme que aparenta ser progressista, porém, por meio de sua narrativa acaba perpetuando diversos preconceitos de gênero e sexualidade.

    Além de tudo isto, a produção apresenta um roteiro frágil, muitas vezes vazio, tirando a força de lutas e questões importantes como o movimento trans, ao mesmo tempo que carimba todos os itens essenciais para que receba diversos prêmios, como está acontecendo atualmente.

    Emilia Perez é um filme feito para enganar críticos e ser aclamado, mesmo que superficialmente, algumas de suas questões narrativas e técnicas provam isso:

    • Em um mundo cada vez mais conservador e de direita, temos uma protagonista trans sendo exaltada como santa ao seu final, independente do modo confuso e contraditório como isto é retratado na produção, a questão é a mensagem transmitida.
    • A questão da produção ser um musical, um gênero cinematográfico que Hollywood costuma gostar, principalmente quando ele discute a sociedade.
    • O retrato do México, na cabeça de críticos “especializados” e sob o domínio de um cabresto, retrata um país que é um dos mais afetados após a reeleição de Donald Trump, assim, auxiliando Hollywood em uma luta contra esta “direita opressora”.

    Emilia Perez é um filme que envelhecerá muito mal, principalmente pelo fato de seu falatório atual se basear no Oscar, em sua competição com Ainda Estou Aqui (2024, Walter Salles), e nos comentários de sua atriz. Uma produção que tenta discutir tanta coisa e ao seu final se torna tão superficial que não diz nada. Em 5, 10 anos, provavelmente ninguém nem mesmo lembrará da produção, ganhando Oscar ou não.

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  • CRÍTICA | Conclave apresenta segredos do poder da Igreja, sob o teto da Capela Sistina

    CRÍTICA | Conclave apresenta segredos do poder da Igreja, sob o teto da Capela Sistina

    Edward Berger entrega um thriller visualmente deslumbrante que examina a fé, a moralidade e o poder na Igreja Católica.

    Após o sucesso de “Dois Papas” (2019), o cinema volta a explorar o universo papal, agora de maneira mais sombria e crítica, com “Conclave”. Dirigido por Edward Berger (“Nada de Novo no Front”) e baseado no livro homônimo de Robert Harris (“O Oficial e o Espião”), o filme mergulha no processo de escolha de um novo Papa após a morte de seu predecessor. O resultado é um suspense claustrofóbico, que discute fé, ética e poder, ambientado inteiramente dentro do Vaticano.

    A trama se desenrola na Capela Sistina, onde o Conclave serve de pano de fundo para explorar intrigas e disputas dentro da Igreja Católica. Ralph Fiennes (“O Jardineiro Fiel”) brilha como o Cardeal Lawrence, encarregado de organizar o Conclave e lidar com os segredos que surgem durante o processo. Sua performance é o eixo moral do longa, enfrentando dilemas internos e externos enquanto busca o “homem ideal” para o mais alto cargo da Igreja.

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    Conclave I Focus Features


    Os coadjuvantes também se destacam, especialmente Stanley Tucci (“A Grande Noite”), cuja presença magnética acrescenta profundidade ao enredo. Mas não só ele, cada ator contribui para a crescente tensão, refletindo a hipocrisia, os dilemas morais e as disputas de poder no clero.

    A direção, de Edward Berger, é precisa, com uma atenção meticulosa aos detalhes que tornam a experiência imersiva. A recriação da Capela Sistina, sob o design de produção de Suzie Davies (“Saltburn”), é impressionante, transportando o público para o coração do Vaticano.

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    Conclave I Focus Features


    O roteiro, de Peter Straughan (“O Espião Que Sabia Demais”) e Robert Harris (“Munique”), respeita a obra original, tratando o Conclave como um microcosmo da Igreja, onde fé e razão colidem em um ambiente fechado. Assim como na direção, evita-se qualquer interação externa, enfatizando o isolamento e a gravidade das decisões tomadas dentro da Capela Sistina.

    Embora o ritmo do filme seja lento em alguns momentos, o clímax compensa, com reviravoltas que certamente gerarão reações intensas, principalmente entre o público mais conservador. O texto não poupa críticas ao conservadorismo, expondo contradições e questionando os ideais defendidos pela Igreja.

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    Conclave I Focus Features


    Na técnica, a fotografia, de Stéphane Fontaine (“Capitão Fantástico”), reforça a atmosfera de suspense, evocando a tensão de um thriller de espionagem. Junto dela, a trilha sonora, de Volker Bertelmann (“Marinheiro de Guerra”), intensifica cada momento, tornando a experiência ainda mais impactante.

    No final, “Conclave” é um suspense cativante, com atuações impecáveis, uma ambientação minuciosa e um roteiro que provoca reflexões profundas. Edward Berger mais uma vez demonstra sua habilidade em criar narrativas viscerais, onde cada detalhe importa.

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  • CRÍTICA | O Maravilhoso Mágico de Oz reimagina o clássico nos tempos modernos

    CRÍTICA | O Maravilhoso Mágico de Oz reimagina o clássico nos tempos modernos

    O Maravilhoso Mágico de Oz acerta no “maravilhoso”, mas falha na parte mágica.

    Em uma viagem feita pra se distrair das redes sociais, a família de Elli se divide quando um tornado surge e leva tanto a filha quanto o cachorro para um mundo mágico onde o mal está prevalecendo, mas ainda há esperança para que Oz resolva todo o problema.

    Tirando a ausência da Bruxa do Oeste, a Glinda e o nome “Dorothy”, esse filme russo, dirigido pelo Igor Voloshin, acaba se aproximando bastante do clássico de 1939, dirigido por Victor Fleming, onde a protagonista busca uma forma de voltar pra casa e acaba esbarrando com um espantalho, um homem de lata e um leão, do qual fará uma bela amizade e amadurecerá graças aos conflitos que vai enfrentar nessa jornada em busca do tal mágico que pode ajudá-la.

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    O Maravilhoso Mágico de Oz | Studio TriTe

    Partindo dessa natureza de trabalhar o amadurecimento da criança ao se distanciar dos pais, fica claro a mensagem em prol de valorizar o tempo longe de produtos supérfluos que as crianças já crescem tendo e enxergam qualquer outra coisa como “chato”. Então, trazer o universo de Oz pra isso, com mensagens de amizade, enfrentar o medo e a importânia da natureza se mostra uma ótima ideia. Pena que não é explorada.

    O que me leva a abordar O Maravilhoso Mágico de Oz como um todo nesse quesito. Tirando o laço que vai se criando no grupo principal do filme, nada é verdadeiramente aprofundado, de modo que conecte o espectador para com a trama, que traga uma verdadeira empatia para com a protagonista e sua história, porque não só a personagem traz pouco carisma, mas os diálogos acabam por soar extremamente expositivos.

    Além do tal amadurecimento nunca vir de fato, de um jeito que fique claro e visível. Por vezes, a personagem apenas muda de opinião, cita algo, nota aquilo, e acaba por aí. Não ganha profundidade. Diferente dos seus amigos que passam por uma jornada mais clara, mais notável tal evolução, onde o leão covarde e o espantalho sem cérebro conseguem subverter as expectativas e não faz jus à característica que receberam.

    Na parte técnica, o longa-metragem consegue chamar bastante atenção pela sua trilha épica e poderosa, que remete a franquias de alto escalão como Senhor dos Anéis. Não que seja tão marcante ou bem inserida, mas é bem feita e passa uma sensação diferente para o filme, trazendo um ar mais sério pra jornada. Tal qual, os efeitos visuais estão ótimos, com os cenários passando verossimilhança e nas vezes que poderia ficar algo muito falso, utilizando cenários pintados para por ao fundo dos protagonistas, o que ajuda a não sair da imersão e quase passando uma sensação teatral que, na minha opinião, mais agregou ao projeto.

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    O Maravilhoso Mágico de Oz | Studio TriTe

    Dito isso, a sensação que a produção passa é muito mais de episódio de TV do que verdadeiramente um filme, não só pela direção simplória, como pelas atuações plásticas, esverdeadas, onde os interpretes do Espantalho e Homem de Lata chegam mais próximos de demonstrar algo real, com esforço, em que fique visível um trabalho por parte de conseguir sentir aqueles personagens na pele. Mas o final, consegue nem fazer jus aos cliffhangers (recurso de roteiro que deixa o final em aberto pra segurar o público pro próximo) dos seriados mais fracos, soando corrido e picotado.

    Vale destacar, como já citado no começo dessa análise, que o filme se distancia do universo clássico de Oz, trocando as bruxas e feiticeiras, apresentando novas personagens que infelizmente não passam força, construção ou sentimento, faltando seriedade para com elas, o que felizmente dura pouco e até por isso o tempo de tela possa ser curto. Ao notar que não havia muito o que ser feito, ou quem sabe, queria deixar para desenvolver na Parte 2, o que acaba mais dando a vontade de não ver mais sobre do que realmente se aprofundar de algum modo, a obra prioriza o quarteto que o espectador deve torcer.

    O Maravilhoso Mágico de Oz está longe de ser uma catástrofe, sendo um filme que o público infantil deve se conectar e se divertir bastante, já que mesmo com problemas, a obra em nenhum momento para ou se deixa respirar por muito tempo, deixando de lado aqueles momentos introspectivos e apostando mais na aventura, na formação desse clássico time que mostra como ainda tem energia pra funcionar nos dias de hoje se bem feito. Mesmo que o filme esteja longe de alcançar o clássico, ele de forma alguma desrespeita o que deu tão certo.

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  • CRÍTICA| Acompanhante perfeita é uma boa iteração de diversos bons filmes

    CRÍTICA| Acompanhante perfeita é uma boa iteração de diversos bons filmes

    Dirigido por Drew Hancock, Acompanhante Perfeita junta relacionamentos abusivos e IA em um belo entretenimento

    Obs: A seguinte crítica contém spoilers de Acompanhante Perfeita.

    A palavra robô é derivada da palavra checa “robota”, que significa, em poucas palavras, “trabalho escravo”. Eles são pessoas obrigadas a servir aos seus mestres, do mesmo modo que os escravos antigamente na Grécia Antiga, ou no período de colonização da América.

    Em pleno 2025, esta noção de tecnologia foi muito ampliada, principalmente por conta de uma IA que já dominou nossas vidas, e que atua de modo tão fácil que não sabemos mais quem é o escravo e quem é o mestre. O cinema já explorou os males desta tecnologia em diversos filmes como 2001: Uma Odisseia No Espaço (1968, Stanley Kubrick), Ex-Machina (2015, Alex Garland), Blade Runner 2049 (2017, Dennis Villeneuve), Meg3n (2022, Gerard Johnstone), e a série Westworld (2016-2022, Jonathan Nolan e Lisa Joy), produções que mostraram inclusive a tomada de consciência dos andróides e sua “vingança” contra humanos.

    A soma do conteúdo narrativo de todas estas produções origina Acompanhante Perfeita, colocando em prática uma interessante discussão que encontramos no filme Herege (2024, Scott Beck e Brian Woods), coincidentemente, também com Sophie Tatcher.

    Acompanhante Perfeita não é um filme original, ele é o bisneto de tudo que veio antes, que foi comido, mastigado, engolido e regurgitado de uma forma quase antropofágica. A produção aprende com os erros de seus antecessores, pega seus pontos fortes e tenta se destacar por si mesmo, apresentando características únicas e muitas, mas, muitas semelhanças com cenas e momentos que já vimos mais de uma vez no cinema.

    Acompanhante Perfeita é a história do namoro de Josh, Jack Quaid, e Íris, Sophie Tatcher. Nossa compreensão muda quando descobrimos que Íris é uma andróide acompanhante e que todas as suas memórias foram fabricadas com o intuito de criar um vínculo com o seu dono/namorado. Esta história parece familiar, não é?

    Acompanhante Perfeita

    Sophie Tatcher e Jack Quaid em cena de Acompanhante Perfeita- Divulgação Warner Bros Pictures

    Enquanto a primeira camada de iterações gira em torno de filmes sobre inteligência artificial tomando consciência, a partir deste momento Acompanhante Perfeita inicia uma segunda camada de iterações que discute relacionamento abusivo de maneira semelhante à Ruby Sparks (2012, Valerie Faries e Jonathan Dayton), em questão do controle que o namorado tem sobre sua “criação”, e filmes como Casamento Sangrento (2019, Tyler Gillet e Matt Bettinelli-Olpan) , em que uma jovem mulher é perseguida por todos os outros personagens que tentam matá-la, e deve se defender sozinha.

    Acompanhante perfeita é um bom filme na medida que mistura comédia, ficção científica e thriller, porém, não consigo parar de pensar que todas as discussões e reviravoltas de seu roteiro, já foram exploradas anteriormente. O que realmente faz Acompanhante Perfeita se destacar dentro deste amplo mar, é a sua estética e o seu timing.

    O filme estreará nos EUA no dia 30 de Janeiro de 2025, duas semanas antes de um dos maiores feriados do país no dia 14 de Fevereiro: Valentine’s Day. Somando isso, a uma produção que apresentou um marketing extremamente carinhoso e fofo, com cartazes rosas espalhados que prometem um belo romance, a Warner Bros Pictures, pretende usar o pastiche de Acompanhante Perfeita para atrair a atenção de diversos casais que buscarão um entretenimento para seus encontros.

    Remetendo a uma estética nostálgica dos anos 1950, principalmente em sua cena inicial, a produção abraça um pastiche e um sentimento lúdico e idealizado, tudo está muito bem, apesar do caos que está ocorrendo, as atuações segura muito neste quesito, nada parece muito absurdo para aquele universo, e quando parece, é cômico. Íris corre pelas matas descalça e com a roupa toda ensanguentada, tenta fugir quebrando o vidro da polícia, e mesmo assim, Sophie Tatcher a constrói de tal maneira que ela continua tão perfeita quanto, não importa o quanto ela esteja sofrendo, ela sempre tem um plano.

    Acompanhante Perfeita

    Sophie Tatcher em Acompanhante Perfeita- Divulgação Warner Bros Pictures

    A cena de maior destaque neste filme é a discussão final entre Josh e Íris. Jack Quaid consegue carregar em um longo monólogo, toda a representação do nice guy, alguém que se enxerga intitulado a ter tudo o que sempre quis, justamente por ser uma pessoa boa, ou melhor, se achar uma pessoa boa. Esta cena é a piece de resistance de Acompanhante Perfeita, por conta dela falar com a sombra que existe em cada um de nós, principalmente nos homens. Um sentimento que muitos sentem e que caso deixe esta dor sair, pode ter consequências catastróficas para si e para todos ao seu redor.

    Não escondendo que é um filme independente, e muito menos original, Acompanhante Perfeita é um arroz com feijão bem feito e um entretenimento depretensioso. Com grande destaque para Sophie Tatcher e o seu lindo sorriso, um roteiro redondo que prende e surpreende o espectador ao mixar a narrativa clássica com reflexões que apesar de sutis, podem gerar discussões futuras, uma comédia auxiliada pela técnica do pastiche e trocas rápidas de interações, e por fim uma fotografia e uma arte cuidadosa e de destaque, permitindo um entretenimento e um agrado visual para o espectador.

    Um destaque também para o pessoal de marketing que conseguiu instigar a curiosidade do espectador de maneiras bem mais interessantes do que estragar de primeira a maior surpresa do filme: a natureza andróide de Íris. Vendendo a produção como um romance de terror e deixando as maiores surpresas para quando as pessoas forem assistir o filme.

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  • CRÍTICA | Lobisomem tem boas ideias, mas não conquista como poderia

    CRÍTICA | Lobisomem tem boas ideias, mas não conquista como poderia

    Lobisomem é aquele filme que não vai te deixar zangado pela perda de tempo, mas vai te fazer refletir sobre o que faltou.

    Lobisomem tem uma premissa simples. Uma criança que cresceu com um pai caçador, entende que existem muitos perigos na floresta, então ao crescer, o abandona e segue pra cidade grande com o objetivo de se distanciar. Entretanto, ao descobrir que depois de anos desaparecido, seu pai foi declarado morto, o filho decide retornar para fazer uma viagem com a família e resgatar seus pertences. Acontece que a floresta não deixou de ser perigosa.

    Dito isso, a trama segue por um caminho além do esperado, trazendo revelações e uma narrativa mais contida do que aparentava, dando novas perspectivas sobre como é ser um lobisomem, o que acontece durante essa alteração de DNA e o quanto ainda dá pra se manter humano. A parte mitológica mostra que tem algo a explorar, mas aí é preciso decidir se quer ser um terror ou não.

    Lobisomem é aquele filme que não vai te deixar zangado pela perda de tempo, mas vai te reflexivo sobre o que faltou.

    Lobisomem | Blumhouse

    Veja bem, o roteiro da obra segue todos os tópicos para dar um bom filme, que cria empatia para com a família protagonista e traz uma ideia interessante pra abordar o homem que vira lobo na lua cheia. Vale dizer, a lua nem aparece na obra! Isso vai de encontro com a falta de noção sobre o que deseja mesmo abordar.

    Como parte do gênero terror, a atmosfera de prender uma família em um local natural é sábia, mas a falta de habilidade pra criar o suspense, a tensão, atrapalha da imersão vir independente do espectador. Os sustos que podem tomar virão por conta do quão do nada ocorrem as aparições “surpresas”. Só que outro fator determinante para atrapalhar tudo, inicia-se pela conveniência dos personagens conseguirem escapar de um ser feroz que deveria ser mais rápido e ágil. E quando não escapam, o mesmo personagem é atingido.

    Na parte técnica, é necessário falar sobre a câmera que tenta agir como se estivesse lá, mas que se mexe de modo tão truncado, tão manejada por um tripé, que acaba mais tirando a imersão que provavelmente gostaria de causar, naquele estilo Atividade Paranormal, do que entregando o desejado. Felizmente, essa abordagem aparece pouco, porque se for pra tentar ser artístico e não conseguir, nem tente.

    A falta de tentativa fica claro em todos os outros quesitos. A trilha sonora cumpre tabela e umas duas vezes soa mais dramática do que deveria. Os efeitos visuais estão muito bons, em nada quebram a imersão. As atuações estão convincentes, conseguem ganhar a empatia de quem assiste. E todo o resto segue um padrão que fica fácil definir a obra como mediana.

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    Lobisomem | Blumhouse

    Ainda assim, é bacana notar a mensagem central de paternidade, escolhas e ciclos viciosos que devem ser quebrados, no qual o pai demonstra estar seguindo os passos daquele que o criou, onde um conflito interno se deixa notável, enquanto a mãe está distante da filha, apresentando certa passividade com essa situação, da qual a trama levará a uma mudança drástica nesse quesito, mesmo que seja enfrentando o próprio marido.

    Lobisomem é um filme que não fere tanto quanto poderia, entrega algo sólido, mas nada além disso também. Encontra um assunto cada vez mais debatido para trabalhar sua trama e tanto um terror quanto uma ficção, uma aventura, poderiam se originar disso. Acaba que a obra se vê em cima do muro e com a ausência da mão certa para fazer dessa nova abordagem marcante.

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  • CRÍTICA| Comando das Criaturas é excelente aperitivo para o novo DCU

    CRÍTICA| Comando das Criaturas é excelente aperitivo para o novo DCU

    Como ponto de partida, Comando das Criaturas é humanidade e suco de James Gunn, na mesma medida

    Segundo o dicionário Oxford, um monstro é: “qualquer ser ou coisa contrária à natureza; anomalia, deformidade ou monstruosidade.” Atormentando nossos pensamentos desde os primórdios da humanidade, estas criaturas fascinam a humanidade e auxiliam em diversas reflexões dentro de diferentes campos artísticos e até mesmo filosóficos.

    A literatura e a cultura pop usa monstros e criaturas em excesso por conta de seu enorme potencial narrativo, os trabalhando em duas frentes principais: a primeiro é a criatura que não apresenta redenção e é a epítome de todo o mal da humanidade, Pennywise de Stephen King é um exemplo.

    A segunda frente inclui as criaturas que não são monstros por si, elas desejam amor e afeto como todos nós, e são negadas por conta de preconceitos e medos internos do ser humano. Em resumo, eles apresentam desejos, ambições e vontades humanas, porém, por serem rejeitados e negados pela sociedade, acabam regredindo a nada mais do que somente criaturas de nossos pesadelos, não por escolha, mas como forma de sobrevivência.

    Grandes personagens como Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo e O Fantasma Da Ópera de Gaston Leroux se encaixam nesta frente, juntamente com todo o elenco principal da série Comando Das Criaturas.

    Anunciada por James Gunn como o ponto de partida de sua primeira fase no universo DC, intitulada “Deuses e Monstros”, Comando Das Criaturas apresenta toda a força de suas produções anteriores como Super (2010), O Esquadrão Suicida (2021) e obviamente a trilogia Guardiões Da Galáxia (2014-2023). Sendo nítido o amor que o roteirista apresenta por cada um de seus personagens, não importando quão desprezível ele seja.

    Comando das Criaturas se inicia após os eventos de Pacificador (2022) e mostra Amanda Waller reunindo um novo time de meta-humanos, porém, desta vez, não por humanos, mas, por criaturas desformes, cada uma com sua personalidade física nítida e com uma história trágica por trás.

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    Cena de Comando das Criaturas- Divulgação DC Studios

    A Noiva foi criada por Victor Frankenstein, como uma parceira para alguém que repudia; Dr. Fósforo foi transformado em uma espécie de “Motoqueiro Fantasma”, verde e radioativo, piada feita dentro da própria série inclusive, por um grupo de mafiosos; G.I.Robot é um robô com uma diretriz de matar nazistas e que se encontra sozinho no mundo; Nina Mazursky é a humana transformada em peixe pelo seu carinhoso pai, somente para evitar que ela sofra mais, entre outros.

    Ao longo de 7 curtos episódios, acompanhamos este grupo de proscritos, inicialmente sob o comando de Rick Flag Sr., um personagem que tristemente não alcança seu potencial, em sua missão de proteger a princesa de um longínquo país eslavo, para em seguida serem encarregados de mata-la.

    O que se inicia como uma versão atualizada de O Esquadrão Suicida (2021), inclusive com o retorno de personagens como Amanda Waller e a Doninha, é ampliado por meio do conceito antigo de que criaturas monstruosas são somente pessoas incompreendidas, trazendo a cada episódio um flashback trágico de um dos membros da equipe.

    Iniciando no segundo episódio com a trágica história de A Noiva, para encerrar no sétimo com a pièce de résistance de toda a produção ao ser contada a origem de Nina. Uma personagem deixada de escanteio por toda a série, porém, que é o coração e a alma de Comando Das Criaturas, sendo o resumo da principal mensagem que a produção deseja transmitir: nunca desista da sua humanidade, por mais que o mundo inteiro caia ao seu redor.

    Ao meu ver, a cena que melhor resume Comando das Criaturas, se encontra em uma pequena cena de diálogo presente no último episódio. Doninha está recebendo carinho dos guardas, enquanto Fósforo e A Noiva enxergam à distância. Fósforo reclama da atenção que o animal recebe e a A Noiva pergunta se ele também deseja receber carinho dos guardas. O homem radioativo sabiamente responde que sim, questionando se ela sabe como é passar 15 anos sem ninguém que a tocasse, e A Noiva recruta que sim, ela sabe.

    Acredito que apesar da animação bem executada, uma composição de cores de brilhar os olhos, uma dublagem grandiosa, principalmente de David Harbour como Eric Frankenstein, e uma trilha sonora que precisaria de outro texto de quase 1000 palavras para dissecar o quão ela é marcante dentro da série como um todo, o que realmente faz a série é o coração e a humanidade de seus personagens, dentro de um arroz com feijão extremamente bem feito, especialidade de James Gunn.

    Muito se discute sobre um desgaste de produções do gênero de super herói, muito por conta de um domínio da Marvel dentro deste campo, com produções que se preocupavam mais com o espetáculo do que uma boa história com coração, não a toa, conheço pessoas que não gostam da Marvel, mas, adoram Guardiões da Galáxia, e isto se resume justamente ao fator emoção presente por trás, que o MCU perdeu após quase 20 anos. O desgaste não é necessariamente de filmes de super heróis, porém, do excesso de produções mal executadas dentro do campo.

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    Comandos das Criaturas não reinventa a roda, na verdade é um começo bem morno para um universo que inclui os maiores nomes dos quadrinhos de todos os tempos como Superman, Batman e Mulher-Maravilha, porém, neste momento de descrença com o gênero, a produção é justamente o que James Gunn e todo o DCU precisam: uma forma lenta e segura de introduzir seu novo universo, de maneira bem executada e que atraia a atenção do público, seja por meio de um Superman crucificado em uma visão distópica, uma sombra do morcego encapuzado que levou os fãs à loucura, ou diversos personagens desconhecidos que são muito mais humanos do que qualquer personagem que a Marvel introduziu em muito tempo.

    Eu tive um professor na faculdade que dizia que se ao longo de um filme, conseguirmos nos importar com somente um personagem, esta produção já está acima da média. Acredito que Comando Das Criaturas passa no teste, nos fazendo importar, rir, chorar, dançar com as músicas, e nos guiando para um futuro promissor que o DCU tanto precisa.

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  • CRÍTICA| Nosferatu,  ou a beleza por meio do macabro

    CRÍTICA| Nosferatu, ou a beleza por meio do macabro

    Dirigido por Robert Eggers, Nosferatu usa e abusa da estética expressionista para construir uma nova visão do épico.

    O movimento expressionista alemão surgiu no começo do século XX como uma resposta cinematográfica à destruição do país, ocorrida durante a primeira guerra mundial. Com o país em crise, o cinema fez diversas produções que apresentavam como características principais: uma visão pessimista de mundo, o constraste entre luz e sombra, a atmosfera onírica do filme e uma arquitetura característica e vista como deformada, dentro de um cenário sempre de angústia e pesadelo. Entre as principais produções do movimento, está incluso Nosferatu (1922, F. W. Murnau.), um filme que ganhou recentemente a sua terceira versão pelas mãos de Robert Eggers.

    Nosferatu é considerado uma livre adaptação da história de Drácula, de Bram Stoker. Após Murnau não conseguir os direitos do livro, o filme foi gravado alterando todos os nomes e seguindo os mandamentos do expressionismo alemão, se tornando uma visão única da obra do escritor irlandês, e uma sinfonia de horror, como diz o seu subtítulo.

    Toda adaptação, seja de Drácula ou Nosferatu, conta a mesma história sob uma diferente ótica. A história se resume em um homem britânico, recém casado, que é mandado para um país distante com o intuito de fechar um acordo imobiliário com um conde misterioso, porém, ao chegar lá, descobre que o conde é um vampiro, assim, juntamente com outros homens, deve impedir que ele espalhe sua praga pelo novo mundo, ao mesmo tempo que deve salvar a sua esposa do monstro.

    A alegoria do homem estrangeiro está presente, juntamente com o erotismo que acompanha as versões, de uma maneira ou outra. O homem britânico é visto como casto, cito como exemplo Keanu Reeves em Drácula de Bram Stoker (1992, Francis Ford Coppola), como um homem que é o auge da pureza e da santidade, enquanto o vampiro é um poço de eroticidade, principalmente se levarmos em consideração a sua paixão pela carne e pelo sangue, a ponto de sugar de suas vítimas, até deixar sem nada.

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    Nicholas Hoult e Aaron Taylor Johnson em cena de Nosferatu- Divulgação Universal Pictures

    Eggers aposta em um Nosferatu mais sexy do que os realizados anteriormente, sem medo de voltar às raizes de um folclore permeado por contos de horror e erotismo. Quando Thomas Hutter, Nicholas Hoult, tem seu sangue sugado pelo vampiro, sua cara representa um orgasmo, a relação entre Ellen e Nosferatu beira um amor doentio e de êxtase erótico, como se o monstro conseguisse dar a ela, algo que o marido jamais poderia. Ao falarmos do vampiro, a caracterização do Nosferatu de Eggers, traz mais uma camada na discussão sobre masculinidade do estrangeiro em comparação ao europeu: um vasto bigode.

    Isto parece algo pequeno e até cômico, porém, dentro do mundo construído e somado a uma assustadora atuação de Bill Skarsgård, é algo que acrescenta muito dentro da história do personagem, construindo um Nosferatu extremamente viril ,em comparação ao puro Thomas Hutter, um homem sem nenhum pelo de barba no rosto.

    Este visual de Nosferatu, destoa muito da versão de 1922 e do subsequente remake de 1979, dirigido por Werner Herzog, assim, foi uma decisão corajosa da Universal ocultar o verdadeiro design de Nosferatu até o lançamento da produção, gerando uma surpresa até mesmo choque no público, que esperava o mesmo careca icônico de sempre.

    Esta não é a única liberdade dentro do filme de Eggers. A verdadeira protagonista de seu Nosferatu não é Thomas Hutter, e muito menos o próprio vampiro, porém, Ellen Hutter, de todas as versões, esta é a que ela realmente carrega o manto de protagonista, muito por conta de uma surpreendente atuação de Lily-Rose Deep.

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    Lily Rose Deep em cena de Nosferatu-Divulgação Universal Pictures

    Sua relação com o personagem de Willem Dafoe, o único que consegue realmente enxergá-la, é um dos pontos altos da produção. Nosferatu se inicia e se encerra com ela, com um plano inclusive, que modéstia a parte, eu teria emoldurado na parede pois é a perfeita composição entre o que há de mais belo no mundo e ao mesmo tempo o que há de mais macabro.

    Do mesmo modo que Robert Eggers se inspirou no folclore para a construção de seu vampiro, o filme apresenta diversas referências e simbolismos que remetem ao movimento expressionista, à arte gótica presente na idade média e à arte barroca, principalmente em sua composição entre luz e sombra, algo utilizado pela fotografia, sempre maravilhosa de Eggers, como forma de construir tensão.

    Ao final da produção, Nosferatu entende o seu papel como uma adição à esta sinfonia de horror que já dura mais de cem anos, ele não tenta reinventar a roda, mas sim, passar a sua própria visão da mesma história, de uma maneira que somente ele conseguiria.

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  • CRÍTICA | What If traz um final infeliz ao demonstrar tudo que poderia ter sido em sua 3º Temporada

    CRÍTICA | What If traz um final infeliz ao demonstrar tudo que poderia ter sido em sua 3º Temporada

    What If buscava apresentar todas as possibilidades que o multiverso nos proporcionava, mas em sua conclusão apresenta um desgaste sem sentido.

    Não existe uma sinopse certa para definir as temporadas de What If, pois além de cada episódio trazer uma história diferente, o final de cada uma busca trazer um problema divergente e totalmente inesperado, pelo menos até se aproximar do final quando os capítulos finais começam indicar para onde vai.

    Dito isso, durante as 2 primeiras temporadas, ainda que eu não gostasse do que fosse feito e preferia algo mais próximo de StarWars Visions, houve uma concordância de trama em que cada episódio abordava um mundo paralelo, com acontecimentos diferentes, e o protagonista de cada capítulo era utilizado de alguma forma no final da temporada, seja fazendo uma referência ou aparecendo para ajudar no problema central em que o multiverso sofria risco de existência.

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    What If | Disney Plus

    Sendo assim, impressiona de modo negativo, que a terceira temporada não apenas opte por apresentar jornadas que não terão relevância nenhuma ao final, como nos últimos episódios traga um grupo de heroínas formado por duas personagens apresentadas/trabalhadas nas temporadas antecessoras e por duas que não conhecemos, não vimos crescer, não vimos um desenvolvimento e tem um vínculo com as outras duas que não entendemos como começou ou chegou naquilo. Por sua vez, nos distancia e deixa perdido.

    Como se não bastasse esse erro inexplicável, que deixa o todo vazio, o final do seriado traz uma apresentação rápida de diversas possibilidades de universo, com personagens e alterações mais intrigantes do que boa parte daquilo que foi visto durante toda a animação, basicamente chamando o espectador de palhaço e deixando claro o potencial que poderia ter sido alcançado, brincando com mudanças realmente atrativas, e não com uma realidade onde apenas o Guardião Vermelho conheceu o Soldado Invernal.

    What If buscava apresentar todas as possibilidades que o multiverso nos proporcionava, mas em sua conclusão apresenta um desgaste sem sentido.

    What If | Disney Plus

    Sobre os episódios, é a mesma coisa do que já foi visto, só que a última temporada de What If parece apenas mais fraca. Mesmo nos episódios mais interessantes, com brincadeiras tipo um grupo de Vingadores que forma um Megazord, simplesmente tudo soa sem graça, sem sal, sem um vigor que atraia os olhos. Contudo, existem as exceções nos episódios 4 e 5, onde um viaja na maluquice das possibilidades e o outro apresenta um mundo pós-apocalíptico com uma heroína inesperada que consegue ser bom a ponto de empolgar pra série solo que a personagem ganhará ainda em 2025.

    A estética da animação se mantém do que foi apresentado desde o começo, mas particularmente não me incomoda. No entanto, é interessante notar como parece que o visual fica mais atraente e bem trabalhado nos episódios que contam uma história melhor, deixando tudo mais interessante. A trilha sonora, no episódio 5 chama a atenção por apresentar um trabalho mais profundo e melancólico que dá o tom certo para imergir aquele que assiste.

    What If como um todo é uma série animada infantil. Isso fica claro não só pela raridade em trazer um capítulo com final catastrófico ou uma jornada mais pesada, como pela lição de moral que o Vigia entrega ao final de cada conclusão, sempre trazendo aquela sensação fofa que serve de aprendizado para as crianças. Acontece que isso não justifica a preguiça do roteiro em viajar pouco nas possibilidades infinitas do multiverso, como construir histórias que atraiam tanto o público adulto quanto infantil, coisa que as produções da Pixar sabem fazer muito bem.

    Longe de ser a pior produção da Marvel, mas fácil a que menos aproveitou todo o potencial que tinha. Sua 3º temporada consegue ser tanto a mais fraca quanto a que mais falha como produção, do que estabeleceu e explorou nas anteriores, mas que parece ter perdido o fôlego. E ainda que possa empolgar com seu final, quase como se pedisse para o espectador pedir por mais, a lição que deixa é do contrário, de que isso não pode acontecer, porque ela esclareceu o que poderia ter feito e sido, e mesmo assim não o fez, então que afunde com as consequências disto.

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  • CRÍTICA| Cem anos de Solidão é mágico do começo ao fim

    CRÍTICA| Cem anos de Solidão é mágico do começo ao fim

    Baseado no livro de Gabriel Garcia Marquez, Cem Anos de Solidão é uma das melhores e mais bem trabalhadas séries do serviço de streaming

    Gabriel Garcia Marquez escreveu Cem Anos de Solidão como o seu magnum opus, após trabalhar seus temas, personagens e o próprio vilarejo de Macondo em livros anteriores como Ninguém Escreve ao Coronel e Os Funerais de Mamãe Grande, Marquez lançou o livro em 1967, tornando-o uma referência até os dias de hoje.

    Ao retratar a ascensão e decadência da família Buendía, e sua extensão no povoado de Macondo, o livro contém de tudo: cenas bélissimas, guerra, amor, conflito, um erotismo saliente, personagens marcantes, discussões sobre religião, política e humanidade, sempre com muito humor e ironia para assim construir uma alegoria da América Latina.

    Cem Anos de Solidão é visto atualmente como um dos melhores livros daa literatura mundial, assim, não é de agora que diversos diretores tentam adapta-lo para o cinema como o italiano Francesco Rosi, o mexicano Anthony Quinn e até mesmo Francis Ford Coppola, porém, Garcia Marquez, além de autor, um professor de roteiro, construiu o livro de forma tão hermética que não seria possível adaptar tal obra em um filme de 2 horas, nem mesmo em um de 4, sem perder tudo o que o fez especial para inicio de conversa.

    Gabriel Garcia Marquez escreveu Cem Anos de Solidão inspirado nas histórias que sua mãe e avó contavam para ele em sua infância, nelas, sempre existiam acontecimentos fantásticos que eram vistos como naturais, assim, abrindo caminho para o estilo do realismo mágico que Cem Anos de Solidão representa tão bem: acontecimentos fantásticos são tratados como comuns e acontecimentos comuns são vistos como fantásticos.

    Gabriel Garcia Marquez, faleceu em 2014, o serviço de vídeo on demand ainda estava em seu início, a NETFLIX era um dos poucos streamings vigentes e mesmo assim, ainda estava no começo com produções autorais, tendo acabado de lançar Orange Is The New Black e House Of Cards, assim, Gabo não viu o monstro que estava nascendo, porém, apesar de não ter visto o seu magnum opus ser adaptado, o escritor viu adaptações de outras de suas obras.

    Cem Anos de Solidão

    Amor nos Tempos do Cólera teve uma adaptação em 2007 com grandes nomes como Javier Bardem, porém, foi um fracasso de público e crítica. No Brasil, Ruy Guerra adaptou em 1983 a história de Cândida Erendira, com um roteiro do próprio Marquez, e adaptou O Veneno da Madrugada em 2006, porém, estas e outras adaptações, jamais conseguiram capturar todas as nuances da literatura de Marquez.

    Com a permissão dos descendentes de Garcia Marquez, e seguindo algumas exigências específicas como a gravação ser realizada na Colômbia, ter um elenco colombiano, e a série ser completamente falada em espanhol, a NETFLIX assumiu as rédeas e decidiu adaptar Cem Anos de Solidão.

    Guiada por um narrador onisciente, Cem anos de Solidão é construída de modo fiel, seguindo beats e permitindo que os fãs do livro se maravilhem não somente com uma arte primorosa, principalmente em seus figurinos que representam tão perfeitamente a essência de cada personagem, cito como principal exemplo a dicotomia rosa de Amaranta com o azul de Rebeca; a construção física do cenário de Macondo que é completada com uma fotografia que se baseia em diversos planos sequências, cito dois como exemplo: o primeiro plano sequência em que conhecemos Macondo, e o plano sequência de Arcádio fugindo do exército enquanto o vilarejo é destruído.

    Cem Anos de Solidão é a série mais cara que a NETFLIX já realizou na América Latina. Para construir o realismo fantástico, foram usados diversas trucagens técnicas que permitiriam isso, ao mesmo tempo que conseguimos enxergar “aonde o dinheiro foi investido”, a série é extremamente pé no chão dentro de seu próprio universo fantástico, algo tão gritante no livro de Marquez, a cena final da morte de José Arcádio Buendia é uma obra de arte, porém, a série só se mostrou tão eficiente por meio de um elenco meticulosamente escalado.

    Eu poderia explorar cada um dos atores de Cem Anos de Solidão e explicar como foi uma escolha perfeita para o papel, porém, este texto ficaria tão longo quanto os pergaminhos de Melquíades, então basearei meu argumento em somente dois: Laura Sofía Grueso, Akima, como Rebeca Buendía e Claudio Cataño como o Coronel Aureliano Buendía.

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    Laura Sofía Grueso ‘Akima’ em cena de Cem Anos de Solidão– Divulgação Netflix

    Rebeca Buendía é uma das personagens mais queridas do livro e é interpretada com muita graça pela modelo Akima, em seu primeiro papel dentro do campo audiovisual. Ao enxergarmos a atriz no meio do canteiro, comendo terra para esconder sua dor, seu contato com a masturbação que fazia a casa inteira tremer, sua rivalidade com Amaranta, ou uma mordida de lábio ao enxergar pela primeira vez José Arcádio Buendia, a atriz consegue nos transportar para o seu universo particular de uma maneira que poucas conseguem.

    Apesar de vários destaques, a piece de resistance da primeira parte de Cem Anos de Solidão, tanto no livro quanto na série, é o mito, a lenda, o homem que é o Coronel Aureliano Buendía. Seu legado ultrapassa Cem Anos de Solidão a ponto de Gabriel Garcia Marquez citá-lo em diversos outros livros como ponto de referência, mais especificamente: Ninguém Escreve ao Coronel.

    Não existem palavras para descrever a potência de Claudio Cataño no papel, no livro, o personagem é enxergado como alguém que carrega a solidão em seus olhos cinzas, e isto é exatamente o que ocorre em sua atuação, durante todas as suas transformações ao longo da série, desde um homem esguio e solitário, sua relação com o anjo que foi Remédios Moscote e principalmente a sua transformação no mítico Coronel que persiste e influencia toda Macondo, ditando inclusive o começo do seu fim.

    Todo este cenário mágico e complexo foi cuidadosamente orquestrado e acompanhado por uma trilha sonora extremamente eficaz, na medida que a NETFLIX encerra com um gancho, como 90% de suas produções, somente nos resta esperar pela segunda parte desta odisseia latino americana, uma continuação que, na minha opinião como amante assíduo do livro, é onde se encontra os melhores momentos de Cem Anos de Solidão e onde o realismo mágico, cuidadosamente trabalhado nesta primeira partem, realmente é despertado.

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    CRÍTICA| Sonic 3 encerra a trilogia com o seu melhor filme e abre caminhos para muito mais

    Dirigido novamente por Jeff Fowler, Sonic 3 amadurece seu universo em aventura divertida e emocionante

    O que eu acho mais divertido em toda a franquia Sonic, é o amor que os realizadores apresentam. O que deveria ser obviamente um flop por conta de uma escolha equivocada do design inicial de seu protagonista, acabou se tornando uma das poucas, senão a única, franquia de adaptação de videogame realmente bem sucedida, tanto em público quanto em crítica.

    Sonic 3 repete a fórmula que fez seus antecessores um sucesso, acrescentando novas camadas, principalmente por meio de uma facilidade que seus roteiristas apresentam: após dois filmes, e uma série derivada, o público já conhece estes personagens com a palma da mão, assim, eles podem ir direto para ação, o que é exatamente o que acontece desde a cena inicial, aprendendo com os erros de seu filme antecessor e não focando demais em personagens humanos que sequer lembramos os nomes.

    Sonic 3 trabalha uma fanfic extremamente bem estruturada, que já foi usado em seu filme antecessor com a inclusão de Knuckles, brilhantemente dublado por Idris Elba, e de Tails. Desde então o universo só aparenta crescer, e a Sega, juntamente com a Paramount, sabem muito bem a mina de ouro que têm nas mãos desde muito antes de um certo vídeo viralizar na internet, em que um menino demonstra seu amor pelo grande vilão do filme de agora: Shadow.

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    Shadow em Sonic 3- Divulgação Paramount Pictures

    A escolha de Shadow como o principal antagonista de Sonic 3 é antes de uma escolha narrativa, uma escolha completamente mercadológica, afinal, depois do ouriço azul, Shadow é um dos personagens mais conhecidos e amados de todo o lore de personagens. Um personagem difícil de adaptar dentro de um filme blockbuster PG-13, pois, mostrar a brutal morte de Maria de maneira eficiente é essencial para a construção de seu personagem, felizmente, o roteiro é construído de tal forma que após uma rápida montagem e uma linda frase sobre estrelas, já choramos com a morte da personagem.

    Do mesmo modo que nos dois primeiros filmes, dentro dos primeiros 10 minutos de Sonic 3, algum personagem expõem verbalmente de maneira bem clara qual é a mensagem do filme, neste caso específico, o filme gira em torno da dor não mudar quem nós somos, jamais tirando o bom que existe dentro de nós. Construindo um espelho claro entre Sonic e Shadow e gerando uma nova camada na medida que somos introduzidos à Gerald Robitink.

    Jim Carrey é um tesouro americano, percebemos em seu olhar o quanto o Doutor Eggman representa, e faz bem para ele, não a toa se tornando o único personagem de sua longeva carreira, que regressou 3 vezes, e desta vez, no melhor estilo Eddie Murphy, contracenando consigo mesmo e mostrando seu verdadeiro potencial como ator em mudanças sutis de gestos e comportamentos entre Ivo Robitinik e seu avô Gerald.

    Shadow, Gerald e Ivo Robitinik são os três principais vilões de Sonic 3. O primeiro é um ouriço que somente conheceu dor a vida toda; o segundo é um homem que deixou o seu rancor e ódio tomar conta, acreditando que um genocídio é a melhor maneira de ter paz; o terceiro é o antagonista que acompanhamos ao longo de dois filmes anteriores e presenciamos sua lenta, mas, satisfatória transformação, em um dos maiores vilões de videogame de todos os tempos.

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    Ivo Robotinik, Gerald Robotinik e Shadow em foto de divulgação de Sonic 3- Paramount Pictures

    Sonic e Robotinik são um espelho negativo um do outro, isto faz com que o embate entre ambos seja tão potente. Desde o primeiro filme, Sonic representa a força da amizade enquanto Robotinik representa os perigos da solidão, na medida que sua vida fez enxergar a amizade e a família como fraqueza, por conta disso, amando tão profundamente suas máquinas, ao inserirmos Gerald Robotinik no jogo, Sonic 3 ganha muito mais força, pois enaltece ainda mais a sua temática.

    O roteiro de Pat Casey constrói a temática da raiva, da angústia e da dor, presente em todos os seus personagens principais: Shadow, Ivo Robotinik, Gerald Robotinik e obviamente Sonic, os fazendo apresentar quatro jornadas distintas, mas, ao mesmo tempo muito significantes e complementares. Cada um deles está em algum espectro dentro da dor, alguns sem chance de retorno, outros ainda com esperança.

    Sonic 3 é o clássico filme pipoca, com profundidades diversas em certos momentos e cenas marcantes, porém, o que realmente o faz algo especial é a consciência que ele é justamente isso: uma forma de entretenimento para as massas.

    Eu assisti o filme em uma sala lotada, em seu dia de estreia, 25 de dezembro. Logo após a ceia, diversos pais e crianças com camisas do Sonic, bonecos, pelúcias, chapéus, combos superfaturados de marcas de cinema, todos sentaram em harmonia para assistir Sonic 3. A sala gritava em harmonia quando Shadow apareceu pela primeira vez, ficou em silêncio durante a morte de Maria, riu com uma performance artística de Jim Carrey, gritou em alguns eventos gloriosos como o retorno da esmeralda do caos e em uma cena pos-creditos que promete um quarto filme tão grandioso quanto.

    Esta é a força que Sonic 3 e a franquia como um todo apresenta. O roteiro é bem construído, a fotografia limpa, os efeitos visuais surpreendem em diversos momentos, os atores estão excelentes, e ele passa uma mensagem importantíssima não somente para as crianças, mas para adultos também. Ele nunca pretendeu ser um filme de Oscar, apesar de seu roteirista fazer campanha para uma indicação de Jim Carrey, e não pretende filosofar e sair de sua zona de conforto, ao contrário, usa a zona de conforto e cativa o público por meio de uma diversão leve e descompromissada.

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  • CRÍTICA| Babygirl entretém, mas,  não alcança o potencial máximo

    CRÍTICA| Babygirl entretém, mas, não alcança o potencial máximo

    Apesar de um bom filme, Babygirl poderia ter usufruído mais de seu erotismo

    Em 1999, Stanley Kubrick lançou aquele que se tornou seu último filme: De Olhos Bem Fechados. Com Tom Cruise e Nicole Kidman, o filme não teve medo de ousar ao contar a história de um homem de família que se envolve em uma seita sexual. Mais de 20 anos depois, também com Nicole Kidman, surge Babygirl, um filme que um usuário da plataforma Letterboxd enunciou como De Olhos Bem Fechados da geração Z.

    Para inicio de conversa, jamais se deve comparar qualquer filme com algo feito por Stanley Kubrick, nada jamais chegará naquele nível de excelência. Em segundo lugar, apesar de ter potencial e apresentar uma Nicole Kidman extremamente confortável em seu papel, Babygirl não alcança seu potencial como filme erótico, apesar de deixar bem claro os desejos de sua protagonista.

    Segundo Sigmund Freud, grande teórico da sexualidade, o desejo surge de pulsões internas como a sexualidade e a agressividade. Ao longo de Babygirl, acompanhamos Romy, Nicole Kidman em um dos melhores papéis de sua longeva carreira, uma C.E.O de grande corporação, casada com Jacob, Antonio Banderas, e com duas filhas. Sua vida muda ao conhecer Samuel, Harry Dickinson, um estagiário que liberta nela uma vontade reprimida de submissão dentro de relações sexuais.

    Discutindo questões como moralidade e a posição da mulher na sociedade, Babygirl é mais uma adição no catálogo de filmes da produtora A24 que somente este ano lançou outras 10 produções que incluem os excelentes Herege e Love Lies Bleeding, porém, dentro de uma produtora conhecida por filmes de destaque, Babygirl deveria ter proporcionado algo maior, tanto temática quanto esteticamente, para se sobressair, porém, acaba ficando na paralela e sendo somente um bom filme.

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    Nicole Kidman em Babygirl- Divulgação Diamond/A24

    Em questão de estética, a produção apresenta uma direção de arte minimalista, com cenários belos dentro de um universo corporativo, uma trilha sonora marcada por músicas pop e uma fotografia exemplar. O clima natalino permite muitos jogos de luzes, e uma mudança na paleta de cores na medida que Romy se permite desfrutar da própria sexualidade e presencia novas emoções que nunca teve em 19 anos de relacionamento com seu marido. Toda esta construção narrativa, ganha muita força com a presença de Samuel.

    Em O Último Tango em Paris (Bernardo Bertolucci, 1972), os personagens de Marlom Brando e Maria Schneider, decidem se isolar em um apartamento, sem saber nada de suas vidas anteriores, para assim conseguir desfrutar do erotismo de uma maneira única. O roteiro e direção de Halina Reijn segue esta ideia do mistério, construindo Samuel mais como uma figura emblemática, do que como um personagem tridimensional por si. Quando não conhecemos nada da história de um personagem, ele corre o risco de perder a força e se tornar esquecível, porém, no caso de Harry Dickinson, isto somente engrandece seu personagem e por consequência toda a narrativa de Babygirl.

    Em questão de temática, a produção pode ser considerado um coming of age tardio, na medida que Romy se redescobre e cresce com suas experiências. Auxiliado por excelentes atuações, somos apresentados a este universo de dominação, um tabu ainda em certos meios sociais. Os momentos íntimos entre Romy e Samuel ocasionam os pontos altos da produção.

    Ao considerarmos que a geração Z quer menos cenas de sexo em produções cinematográficas, Babygirl ousa muito em momentos pontuais, porém se segura em outros que poderiam ter tido maior ousadia em pró de um maior impacto erótico e no filme como um todo, como a questão da moralidade de Romy, algo presente, principalmente por conta da sua relação com sua assistente Esme, porém, nunca explorada em sua totalidade além de uma discussão sobre o exemplo que ela deve passar por ser uma mulher C.E.O.

    A produção é boa, porém, fica na paralela de diversos temas sociais, o universo corporativo e o seu machismo sobressalente, o papel da mulher dentro e fora da família, o desgaste das relações matrimoniais, a repressão e o desejo sexual, porém, por bem ou por mal, não se aprofunda especificamente em nenhuma delas, construindo um filme de personagem e focando na jornada de libertação e auto-descoberta de Romy, que seguirá muito depois dos créditos se encerrarem.

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    Pôster Oficial de Babygirl– Divulgação A24

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  • CRÍTICA | Superman e Lois traz um final apoteótico para o herói em sua 4º Temporada

    CRÍTICA | Superman e Lois traz um final apoteótico para o herói em sua 4º Temporada

    Superman e Lois aumenta o escopo para como se adaptar o escoteiro da DC Comics, que vai receber uma nova visão em 2025 e terá um páreo a alcançar.

    Após uma batalha crucial com o monstro criado pelo Lex Luthor (Michael Cudlitz), Superman (Tyler Hoechlin) está morto e tanto sua esposa quanto seus filhos precisam lidar com as ameaças a fora que não foram derrotadas e não planejam parar de causar o caos pela Terra.

    Uma informação importante de se dar é que a produção da quarta temporada da série foi completamente afetada graças ao cancelamento da produção e o fato de que não só a produtora CW está chegando ao fim, mas o personagem Superman está retornando aos cinemas com outro ator no papel e aquele deve ser a única versão a ser encontrada pelo novo universo da DC que será estabelecido na indústria audiovisual.

    Sendo assim, com o corte no orçamento, no qual cada temporada custava 75 milhões pelos seus 15 episódios, diversos atores regulares das três temporadas antecessoras não puderam retornar para todos os episódios, tal qual o dinheiro investido em efeitos visuais precisou ter um equilíbrio para os últimos 10 episódios que o seriado reservaria tendo apenas a família do Superman e seu inimigo como protagonistas do enredo ao todo. E o que se pode dizer é que um milagre foi feito.

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    Superman e Lois | Max

    Em qualidade, dá pra dizer que a temporada manteve um nível favorável para as engrenagens que tinha, cada episódio traz um núcleo dos personagens coadjuvantes, que ganham um desenvolvimento e uma conclusão formidável para o que havia sido preparado na temporada anterior, sem enrolação e seguindo de modo direto para que de alguma forma ainda case com a narrativa principal envolvendo derrotar Lex Luthor.

    Contudo, nem tudo são flores, o roteiro de Superman e Lois muitas vezes demonstra correria com assuntos que poderiam ser melhor aprofundados como uma recém descoberta de poderes ou demonstra perda de tempo com um casamento que não apresenta certo propósito para a trama como um todo, onde fica visível que outros assuntos poderiam ser trabalhados no lugar como um trauma pós uma morte chocante.

    Isso sem contar deslizes que acabam acontecendo por falta de atenção ou conveniências que precisavam acontecer, visto que em certo momento da temporada um ser enorme some por alguns episódios, os personagens não sabem onde a criatura está, quando ela se encontra num subsolo que qualquer um com poderes kryptonianos poderia ter localizado. Tal qual, erros estúpidos que personagens cometem para trazer vantagem ao inimigo, seja quebrar propriedade pública ao vivo pra televisão ou decidir ensinar algo aos filhos que poderia ter sido realizado no começo.

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    Superman e Lois | Max

    Dito isso, a temporada se sobressai pelas decisões divergentes que toma com o rumo do Superman. Boa parte do que se vê aqui não foi visto em nenhuma outra mídia, principalmente se tratando do final, e o modo como é conduzido, é com uma delicadeza e profundidade, que não só humaniza o personagem como consegue honrar sua essência, naquilo que foi estabelecido no seriado desde o princípio até aquilo que os leitores mais assíduos entendem do herói.

    Ainda que o último episódio seja emocionante, o destaque fica pro capítulo 7 intitulado “A Regular Guy”, não só pela coragem em seu final e no que isso vai proporcionar aos personagens no futuro, mas por trazer um personagem clássico dos quadrinhos de um jeito que encaixe de modo ideal, explicando sua ausência nas outras temporadas e trazendo uma noção maior do sacrifício que o Clark Kent passa todos os dias e o público deixa de ver só por ser quem é.

    Mesmo com alguns episódios apresentando a forte ausência de alguns integrantes do elenco, não fazendo sentido não estarem agindo para com tal momento ou quando aparecem nem falando muito sobre, o tempo curto que a temporada tem para resolver todos os seus assuntos deixa ela rápida e direta num geral, relembrando aos fãs do porquê se sobressai entre as obras de super-heróis e mantendo a qualidade na trilha sonora comovente, no encaixe da trama de Lois com a do Superman e no claro amadurecimento que cada personagem passou para estar da maneira que se encontra.

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    A quarta temporada de Superman e Lois tem suas decisões questionáveis, mas se tratando de uma produção que planejava finalizar em uma sétima temporada, correndo para abordar certas tramas que deveriam ficar pro futuro, o saldo é realmente positivo. Mostrando que aquilo que a diferencia não se relaciona às cenas de ação ou ao mundo realista imposto, mas em compreender a inspiração que um homem pode transparecer e como a sua família, tão fácil de encontrar no dia a dia, se mostra fundamental para melhorar a pessoa que busca ser.

    Aqui, tanto o intérprete de Clark quanto a intérprete de Lois Lane (Elizabeth Tulloch) deixam suas marcas como uma das, se não “as”, melhores versões que foram adaptadas dos quadrinhos. Todas as nuances tendo sido trabalhadas, desde as características mais famosas até aquelas pouco abordadas, pelo menos do jeito certo. A química faz parecer que na vida real são um casal e a sintonia em tela leva o espectador a compreender o motivo de serem um dos casais mais amados dos quadrinhos de heróis, e não por repetir o que foi feito, mas por melhorar. Proporcionando uma despedida que mesmo sendo triste, ainda apresenta beleza por ter nos dado a chance de acompanhar o máximo possível com tamanha intensidade.

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