Crítica | Presença: O terror experimental da visão do espectador

Presença

Dirigido por Steven Soderbergh, Presença subverte a história de casa mal-assombrada por meio de uma singela, e agonizante, mudança de ponto de vista.

Obs: A seguinte crítica apresenta spoilers do filme Presença.

Em 1954, Alfred Hitchcock fez Janela Indiscreta, a produção se utiliza de um protagonista imobilizado em seu apartamento para discutir voyeurismo, paranoia e tensão que ocorre ao observamos aquilo que não desejamos.

No livro de entrevistas: Hitchcock Truffaut, em que o cineasta francês discute a obra do mestre do suspense, Hitchcock defende que o personagem de James Stewart está no papel de espectador assistindo ao filme. Truffaut complementa por meio de uma analogia que 9 em 10 pessoas, ao verem do outro lado da janela uma mulher se despindo ou um homem arrumando a casa, não conseguirão desviar o olhar, continuarão olhando, por mais que tente desviar seus olhos. O observador está imobilizado, fascinado e distante do objeto observado, pois bem, tudo isto para começarmos a discutir um interessante filme de terror chamado: Presença.

O terror é um dos gênero mais antigos da humanidade. No campo cinematográfico ele apresenta diversos sub-gêneros, desde o slasher, o psicológico, a casa mal-assombrada e os mais experimentais como A Bruxa de Blair (1999, Eduardo Sánchez, Daniel Myrick) e Atividade Paranormal (2007, Oren Peli), que abriram portas para novos modos de tecnicamente explorar o terror.

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Callina Liang, Chris Sullivan, Eddy Maday, Julia Fox e Lucy Liu em cena de Presença- Divulgação The Spectral Spirit Company

Presença é um destes filmes experimentais, subvertendo o filme de “Casa mal-assombrada” e fazendo uso de 33 planos sequência, feitos em steadicam, permitindo uma maior fluidez no movimento, na medida que não acompanhamos a família sendo assombrada, e sim a própria assombração que observa a família.

A respiração, o movimento escada acima, o movimento escada abaixo, a todo momento o espírito de Presença observa a família, sem ser visto ou ouvido, coincidentemente do mesmo modo que o espectador que vai ver qualquer filme no cinema, e que tem o olhar direcionado por conta de escolhas certeiras do diretor e que não são mudadas, por mais que desejamos.

Eu me recordo quando assisti ao filme O Homem Invísivel (2020, Leigh Whannell). Em uma cena, a personagem de Elizabeth Moss é atacada por seu ex marido, agora invisível, dentro de um hospício. O monstro mata diversos médicos e seguranças indefesos, enquanto Elizabeth Moss agoniza e se arrasta no chão, passando por uma arma de fogo que estava ao seu lado. Me recordo vivamente que neste momento eu gritei bem alto, como se ela pudesse me ouvir: “Pega a Arma”, mesmo sabendo que ela jamais conseguiria me escutar.

Quando assistimos um filme, nos inserimos neste mundo, nos aproximamos dos personagens, quase como se eles se tornassem nossos amigos mais íntimos por um tempo de duas horas. Por conta disso que nos emocionamos em filmes como Vingadores: Guerra Infinita (2018, Joe e Anthony Russo), quando o Homem Aranha é desintegrado pelo estalo de Thanos. Por conta desta proximidade, nós torcemos pelo bem e desejamos a queda do mal, isto não ocorre, assim, ficamos arrasados e almejamos um modo de impedir aquilo à tudo custo.

Presença faz tudo isso com maestria, a assombração se aproxima dos moradores, diversas vezes quase encostando neles, como se tentasse a todo momento dizer algo, os protegê-los, porém, eles não os escutam. Por mais que esteja sempre presente, a assombração, que somente é vista rapidamente no último minuto do filme, é constantemente ignorada e apresenta pouco poder em alterar os fatos que ocorrem, exceto em alguns momentos bem específicos em que realmente mostra seu poder, principalmente em questão de zelo para aqueles que ama.

Desde Frankenstein de Mary Shelley, entendemos que aqueles que enxergamos popularmente como monstros, raramente são tão terríveis quanto aparentam. O monstro de Frankenstein foi criado por um cientista maluco e jogado no mundo sem preparo ou conhecimento, o Fantasma da Ópera somente desejava um amor, e a assombração de Presença somente desejava proteger a família.

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Callina Liang em cena de Presença– Divulgação The Spectral Spirit Company

Do mesmo modo que Ghost Story (2017, David Lowery), a produção se baseia em diferentes linhas do tempo que mesclam o passado e o presente, nos gerando uma dúvida sobre quem é a assombração que observa esta família, prendendo a atenção do espectador não por meio de um terror, mas, por conta de uma tensão e um abalo causado pela nossa impotência como espectador.

Presença é um filme curto, apresentando menos de uma hora e 30, porém, por conta de seu ponto de vista único e uma cinematografia experimental e tecnicamente interessante, prende a atenção e a curiosidade do público. No pôster da produção existe uma citação da crítica feita pelo site Bloody Disgusting: “Te deixa totalmente abalado”. A pergunta que podemos fazer é: por quê?

A resposta é mais simples do que aparenta, ela nos deixa abalado não por conta da assombração, afinal, na medida que ela não é mostrada e vista sempre por meio de um ponto de vista, quem ela poderia ser além do próprio espectador? Um espectador que se sente tão desconfortável que abandona a sala de cinema no meio do filme? Como ocorreu durante o lançamento da produção no Festival de Sundance, e ocorreu novamente na pré estreia que tive o prazer de assistir ao filme?

O que realmente nos deixa abalados é o que a assombração presencia, sendo praticamente inapto de alterar ou impedir os acontecimentos, como quando Ryan, um menino loiro e misterioso, dopa Chloe, a protagonista que a assombração observa desde o começo do filme.

A assombração de Presença observa Ryan colocando a droga no suco, subindo ao quarto e oferecendo inocentemente para Chloe. No momento que o fantasma observa em um close, auxiliado pela lente olho de peixe, o espectador também quer gritar para Chloe não tomar o suco, porém, estamos impossibilitados de auxiliar, afinal, estamos em outro plano do que os personagens, nós não podemos ajudar aqueles de quem gostamos, isto sim abala.

O roteiro de David Koepp intercala a onisciência do espectador com surpresas, afinal, o único ponto de vista que presenciamos ao longo de Presença é a da assombração, um personagem mudo, assim, o que ele sabe, nós sabemos, mesmo quando preferimos não saber, como é o caso de Ryan e a tentativa de “Boa Noite Cinderela” em Chloe.

Neste momento a câmera treme e desfoca, enfatizando uma espécie de grito, auxiliado por um agudo sonoro que deixa qualquer um desconfortável. O forte de Presença, é este sentimento de nos colocar realmente na posição de espectador indefeso, aquele que como Jimmy Stewart somente observa o desastre se desenrolando, aquele que não consegue impedir a morte de um personagem querido como o Homem Aranha, ou aquele dá conselhos inatingíveis para Elizabeth Moss. Isto que nos abala: o sentimento de impotência.

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Pôster Oficial de Presença

Presença é considerado um filme de horror, porém, eu consideraria mais um thriller e um filme experimental, afinal, o mais perto que chegamos do terror, é transmitido pelo próprio ser humano, e pela nossa incapacidade tanto de ajudar, quanto de desviar o olhar, nos deixando fracos e fazendo refletir sobre o papel passivo que apresentamos toda vez que entramos em uma sala de cinema.

Caso o espectador entre na sala buscando um terror, ele sairá decepcionado, afinal, o ponto de vista é extremamente cansativo após um certo tempo e o desconforto é constante durante toda a sua duração, porém, se for levado pelo filme, presenciará mais emoções e angústias do que muitas produções de horror da atualidade.

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